Previsão do tempo: Janeiro/2026 – Melhores do ano

Adeus ano velho, olá ano novo. A Revista Descompasso fecha mais um ciclo de existência ao mesmo tempo em que esta coluna faz seu primeiro aniversário. Um ano de Previsão do Tempo, e a pista continua salgada, o clima nada ameno, e o mundo prestes a pegar fogo. Enquanto o caos se instaura, seguimos vendo, pensando e escrevendo sobre filmes. Ou, ao menos, tentando. Sem deixar de olhar para o mundo e também sem deixar de entrar nos outros universos que são as salas de cinema, as galerias de arte, os fones de ouvido, as páginas literárias e tudo o mais.

Em termos cinematográficos, 2025 foi um ano reconhecidamente irregular na celeuma dos lançamentos, marcado fortemente pela ausência de grandes eventos cinematográficos, seja no campo comercial ou artístico. O que não quer dizer que não houveram bons filmes, e nem mesmo filmes que mobilizaram debates e discussões. Estes sempre existem e continuarão a existir, encontrá-los é puramente uma questão de investigação, busca e interesse. Afinal de contas, não há safras ruins quando se trata de cinema. No contexto brasileiro, alguns eventos que destacamos, mais por seus acontecimentos do que necessariamente pela qualidade dos filmes, variáveis para cada um de nossos críticos e redatores: o lançamento de O Agente Secreto, mais novo candidatíssimo ao Oscar, e a insurgência de novas vozes marcantes no cinema independente, como a turma do filme KickFlip, lançado na edição passada da Mostra de Cinema de Tiradentes, além do destaque para a figura de Wesley Pereira de Castro, protagonista de uma das sensações de festivais nacionais e estrangeiros, Um minuto é uma eternidade para quem está sofrendo. Houve também a notável presença de curtas-metragens oriundos das leis de incentivo Paulo Gustavo e Aldir Blanc, que, por um lado, aumentaram significativamente a produção de curtas no Brasil, mas talvez não tenham trazido frutos tão positivos em termos de resultados estéticos. Estamos ainda a ver no que esta produção resulta no próximo período.

Por fim, mas não menos importante, esta Previsão do Tempo, de Janeiro de 2026, em que realizamos a primeira eleição de “favoritos” da redação. São escolhas pessoais e intransferíveis, a partir daquilo que cada um pode acompanhar. Os critérios de votação são simples: solicitamos 5 lançamentos vistos em 2025 para cada redator. As obras podem ter sido estreias comerciais ou filmes vistos em festivais e mostras. Por conta da significativa variedade regional de nossos colegas, há uma importante dissonância nas listas: nem todos conseguem acompanhar os mesmos festivais e as mesmas estreias. Ao seu modo, isto nos interessa. Pedimos também outros dois tópicos para as listas de 2025: que cada redator enviasse um filme antigo/descoberta assistida pela primeira vez nos últimos 12 meses, além de um momento cinematográfico pessoal marcante neste último ano, a fim de não perder o caráter de crônica e testemunho desta coluna.

Abaixo, estão os votos individuais de cada um e, por fim, o ranking final da soma dos filmes. A matemática é simples, já que, aqui, ninguém é muito bom com números: filmes em 1° lugar somam 5 pontos, em 2° somam 4 pontos, em 3° somam 3 pontos… e assim por diante. Se as obras empatam em pontuação, a que teve uma colocação melhor em listas individuais fica à frente. Se houve uma colocação igual, há empate técnico, o que ocorreu somente no 10° lugar da lista. Eram permitidos curtas e longas-metragens. 

A Editoria da Descompasso deseja, aos leitores e colaboradores, um feliz e vivaz ano de cinema que se aproxima. Seguem abaixo os nossos votos do tempo que se passou.

Editoria da Revista Descompasso

Ana Júlia Silvino

5 lançamentos de 2025

  1. Dry Leaf (Alexandre Koberidze, 2025)
  2. Jóhanna af Örk (Hlynur Pálmason, 2025)
  3. ⁠O agente secreto (Kleber Mendonça Filho, 2025)
  4. Bugonia (Yorgos Lanthimos, 2025)

Filme antigo visto pela primeira vez

Grizzly Man (Werner Herzog, 2005)

Momento cinematográfico pessoal do ano

As discussões matinais da oficina ‘Corpo Crítico’, no 27º FestCurtas BH.


Clara Pellegrini

Esta lista contém um apanhado de tudo que me marcou no cinema durante 2025. Não é uma organização hierárquica, tampouco pretende comentar ou analisar qualquer um dos filmes; serve mais como registro e retrospectiva. É um exercício curioso, que me força a tentar, imprecisamente, tatear na memória uma certa impressão dos filmes – o que ficou deles – e quais permaneceram com mais força. Aqui estão os que a mão alcançou primeiro:

5 Lançamentos de 2025

  1. Estrela Brava / Jorge Polo, 2025
  2. Yõg Ãtak: Meu Pai Kaiowá / Sueli e Isael Maxakali, Roberto Romero e Luísa Lanna, 2024 (exibido na Mostra de Tiradentes de 2025)
  3. Sem Título #9: Nem todas as flores da falta / Carlos Adriano, 2024 (exibido na Mostra de Tiradentes de 2025)
  4. Performance: Curso de Pintura Rápida para Principiantes / Elena Duque, 2023 (exibido/performado no FENDA 2025)
  5. Núbia / Bárbara Bello, 2025

Filme antigo visto pela primeira vez

Dos filmes mais antigos assistidos pela primeira vez em 2025, fica Videodrome (David Cronenberg, 1983) como o mais especial. Tenho uma coisa de adiar certos filmes que ocupam na minha cabeça um lugar de destaque (meio específico e desorganizado) no grande mar do cinema, e esse certamente era um deles.

Momento cinematográfico pessoal do ano

2025 teve muitos momentos marcantes no cinema, mas o mais surreal deles foi, com certeza, a sessão de Killer of Sheep (Charles Burnett, 1978), no Cine Humberto Mauro, com a presença do Burnett. Assisti ao filme sentada umas duas ou três fileiras atrás dele, super consciente do fato de que nossos olhos e ouvidos estavam sendo inundados pelas mesmas informações. Depois da exibição, Burnett subiu ao palco em frente à tela e, mediado por uma dinâmica complexa e meio bagunçada de tradução simultânea, falou livremente sobre sua trajetória, a experiência do L.A. Rebellion, o cenário da feitura dos filmes e o que mais lhe passasse pela mente, sempre bem humorado, agradecido pela nossa presença ali, e com um fluxo de pensamento insubmisso às perguntas que lhes eram feitas. Foi um privilégio presencia-lo aqui, já idoso e um pouco frágil, mas inteiro, lúcido e apaixonado.


Egberto Santana

Todo ano alguém brada que o cinema vai morrer ou que alguém vai matar ele. Se alguém, sem a fundamentação política devida que essa afirmação impõe, disser isso novamente em 2026, esse será o pequeno conjunto que ofereço para que possam compreender que ele está vivo e vai muito bem, muito obrigado. São menos as suas tramas e narrativas, mas grandes momentos ampliados pelo conjunto. Ofereço o inusitado, o colorido, o deboche, o explosivo, o uso da cultura digital e seus enquadramentos, a subversão de gêneros, a vertigem das paisagens e os comentários feitos sobre o mundo presentes nas imagens e sons dos filmes presentes dessa lista e que foram capazes de me impactar no ano de 2025.

5 Lançamentos de 2025

  1. Salomé (André Antônio, 2024-25)
  2. Americana (Agarb Braga, 2025)
  3. Cloud – Nuvem de Vingança, de Kiyoshi Kurosawa (2024-25)
  4. Foi apenas um acidente (Jafar Panahi, 2025)
  5. Uma Batalha Após a Outra (Paul Thomas Anderson, 2025)

Filme antigo visto pela primeira vez

Serras da Desordem (2006, Andrea Tonacci). Aquele que mais desmontou e montou novamente qualquer coisa parecida com fé no cinema.

Momento cinematográfico pessoal do ano

A sessão A real estética: o funk e a experiência do vídeo, da Mostra O Funk no Cinema. Como já mencionado aqui, vai ser difícil esquecer os flashes de Sorrizo Ronaldo transmitidos dentro de uma casa de barro no extremo leste de São Paulo.


Helena Elias

5 Lançamentos de 2025

  1. Nuit obscure – “Ain’t I a Child?” (Sylvain George, 2025)
    Daqueles filmes que inauguram uma outra vida para as sensações e reinventam a topografia da sala de cinema.
  2. Salomé (André Antônio, 2024-25)
    Aqui é com Agostinho: “A medida do amor é amar sem medida.” É um milagre estar diante de um filme sem medidas, que ama sua falta de medidas.
  3. Kickflip (Lucca Filippin, 2025)
    Quando começar um plano e por que? Não mais encontrar uma baliza moral para a gênese das imagens. Autoetnografia e barbárie.
  4. O Agente Secreto (Kleber Mendonça Filho, 2025)
    Filme que retoma a possibilidade do cinema ser um veículo de enunciação universal, e ainda assim se imiscuí em várias áreas de rarefação narrativa.
  5. The Mastermind (Kelly Reichardt, 2025)
    Disjunção e a invariância como procedimentos de composição.

Filme antigo visto pela primeira vez

Mangue-Bangue (Hélio Oiticica e Neville de Almeida, 1971)
Cinema em estado de processo, sem acabamento, como a perpétua maturação de sentidos, que nunca chega, no entanto, ao momento de uma síntese estável. Cinema como sentido eternamente se fazendo.

Momento cinematográfico pessoal do ano

Um novo ano nem sempre traz consigo novas convicções. Talvez o momento das grandes datas, da ansiedade das decisões e das mudanças chame mais atenção para o que permaneceu o mesmo. O que restou depois da partida de um grande amor, depois de vivenciar a ascensão e a queda de uma paixão vulgar, depois de ter visto tantos filmes ruins em festivais, depois de ter deixado para trás uma parte do “meu” corpo em uma cirurgia, depois de ter escrito cem páginas de uma dissertação. Em se tratando de cinema, com certeza a prática que mantém a chama das imagens acesa é o cineclubismo, esse velho amante, que sempre inventa novas formas de me surpreender e encher de tesão. Continua sendo a maneira de repensar o bem pensado, de confrontar o impensado, de provar que a crítica é tarefa conjunta, de ocupar a sala de cinema politicamente, de perceber que distribuir é mais importante do que produzir. Que o cineclubismo siga sendo uma zona autônoma temporária, a certeza que vale a pena construir essa esfera de acolhimento e elaboração de dúvidas, a própria possibilidade de transfigurar o cinema e fazê-lo um espaço antidogmático por excelência. Vale dizer: a mais-valia do cineclubismo é estética, afinal é impossível que o objeto de fetiche tenha valor de uso aos olhos do fetichista, ou ainda, o valor de uso do filme é paradoxal, só emerge quando negamos que ele esteja a serviço do nosso próprio discurso.


Luiz Fernando Coutinho

5 Lançamentos de 2025

  1. Tardes de soledad (Albert Serra)
  2. Aoquic iez in Mexico! (Annalisa D. Quagliata Blanco)
  3. O agente secreto (Kleber Mendonça Filho)
  4. Resumo da ópera (Honório Felix, Breno de Lacerda)
  5. Nuit obscure: ain’t I a child? (Sylvain George)

Cinco filmes que, vistos no cinema, provocam um tipo de imersão vertiginosa, nos lançando para fora de nós mesmos e depois nos devolvendo desnorteados, esgotados, emocionados. Cinema, arte do transe. Vivo e pulsante.

Filme antigo visto pela primeira vez

Times Square (Allan Moyle, 1980): por uma rebelião queer, punk e utópica.

Momento cinematográfico pessoal do ano

Sessão do filme Eros, o Deus do amor (Khouri, 1981): porque o cinema não se reduz aos
filmes e muito menos aos bons.


Maria Sucar

5 Lançamentos de 2025

1. Morte e vida Madalena, dir. Guto Parente. (CE, 2025)

Guto Parente é mestre em fazer a estranheza ter um sabor doce e um aroma frutado. Morte e vida Madalena é também isso, deliciosamente estranho. A performance de Noá Bonoba carrega esse sentimento com um humor pós-pós-irônico e seu tom de voz monótono e seco, contrastando com seu estado de mulher grávida produzindo um filme que a cada passo para frente, dá três para trás. Acredito até que a maior força do filme é justamente saber quem pode fazer o que com maestria e apostar nisso. Marcus Curvelo como um homem patético, Tavinho Teixeira como um egocêntrico e estranho senhor de idade. Noá como protagonista. Tudo em seu devido lugar, com seu devido funcionamento. É uma coreografia de forças atuantes, de gente que sabe o que faz. É desesperador, histérico e delicioso, sempre delicioso.

2. Ataques psicotrônicos, dir. Calebe Lopes (BA, 2025)

Tenho ficado atenta ao trabalho de Calebe Lopes tem anos, desde meu primeiro contato com seus filmes através do curta Modo Noturno (2021), que inclusive publiquei um texto sobre para a revista. O que me chama atenção no trabalho de Lopes é a preocupação com a plasticidade das imagens e a compreensão que a força do cinema de terror pode habitar justamente na capacidade de modular esse imaginário, seja ele óptico ou sônico, através da inventividade. Ataques Psicotrônicos opera exatamente na maturação não apenas dessa compreensão, como também das habilidades e possibilidades de executar uma experimentação plástica. A premissa é simples, sem grandes locações ou exagerados efeitos, simples e pura manipulação do som e imagem, cor, câmera e áudio. O filme demonstra os anos de estudo, produção, reflexões e tentativas do diretor, alcançando a nata do cinema de terror com um toque Olho de Vidro próprio.

3. No puedo tener sexo, dir. Bel Gatti (AR, 2024)

Escrevi brevemente sobre esse filme na previsão do tempo de maio na tentativa de começar a organizar ideias para um texto que nunca foi de fato construído. Não pela falta de vontade ou pela falta de tempo, mas principalmente pela aparente incapacidade de digerir um filme como esse e, ainda mais, adequá-lo à uma análise. No puedo tener sexo acontece como um refluxo no estômago, uma presença constante e incômoda, ácida. Você quer rir de Bel, mas tem medo do que ela possa fazer, então ri com ela, apesar de ela mesma não estar rindo com você também. Bel ri da sua cara contorcida, do seu constrangimento, da sua inadequação. O mundo é de Bel e você agora vai ter que viver com isso.

4. One battle after another, dir. Paul Thomas Anderson (EUA, 2025)

Grandessíssimo cinema estadunidense. O filme parece querer que você tente entender sua posição através dessas dicotomias, uma operação exaustiva e inconclusiva. É assim que você desiste, abaixa a guarda e se deixa levar. É inclusive muito fácil se deixar levar por um filme que, como o título já indica, é uma coisa depois da outra e depois outra e por assim vai. Uma euforia megalomaníaca, egocêntrica, destrutiva, avassaladora. Tudo é muito, o mal é muito, o cuidado, o descuido, a preocupação, a necessidade. Tudo é urgente, tudo é pra ontem. Há um sentimento terrivelmente neoliberal no filme do aqui-e-agora e nós-ou-ninguém, que, fruto de uma autoconsciência ou não, é inegável que não há nada mais “americano” do que isso. Um imaginário falido de batalhas e derrotas e vitórias. Sempre “nós contra eles”, seja lá quem formos nós e quem forem eles. E a força do filme habita justamente no escancarar, na forma e no conteúdo, a necessidade e a falência desse modelo que jamais cessa.

5. Pupá, dir. Osani (RN, 2025)

Pupá é mais um dos exemplos de que o RN é uma potência cinematográfica em processo de explodir. Osani, muito conhecido e admirado pelo seu trabalho como fotógrafo dentro do cinema e das artes visuais no estado, assume a direção do filme para contar a história da sua mãe com toda a beleza que por anos aprendeu a revelar através da câmera. O filme tem uma personagem carismática e uma história interessante, mas é através da captação das imagens que a história brilha, porque sai de um relato compartilhado para uma ternura, um relicário. A relação mãe e filho surge na delicadeza da representação dessa mulher, com suas cores e cenários, cada segundo mais vibrante e charmosa. Pupá não é apenas um filme sobre uma mãe, mas também é um filme sobre um filho.

Filme antigo visto pela primeira vez

Uncut Gems, dir. Benny Safdie e Josh Safdie (EUA, 2019)

Muito similar ao sentimento que tive com One Battle After Another, há uma euforia inegável em presenciar a performance neoliberal numa cinematografia que tem como maior objetivo exacerbar até não poder mais. Howard é um personagem que se ama poder odiar, um homem ganancioso, mesquinho, cheio de charmes e de cartas na manga. São essas cartas que a gente passa o filme inteiro presenciando no jogo, como usá-las, quais seus efeitos, quais suas consequências. Você se pega em algum momento já acostumado com o quanto ele consegue fazer tudo dar certo, mas sem que isso te tire da maluquice que é o ver tendo que resolver. O filme gira em torno dessa figura que está constantemente se dando mal e se dando bem e você gosta de ver ele se fodendo, mas gosta mais ainda quando ele dá a volta por cima. É um filme de puro amor e comprometimento com o cinema, com as possibilidades, com o choque, o excesso e o desconforto.

Momento cinematográfico pessoal do ano

Por fim, a experiência mais especial de cinema no ano de 2025 foi voltar a frequentar as salas de cinema, coisa que não fazia desde 2024, em uma ocasião de trabalho em um Festival. Fato é que ir ao cinema tem se tornado atividade de luxo, ainda mais em uma cidade que só tem acesso à cinemas de shopping comerciais em que a meia entrada custa R$27,00. Por muito tempo o movimento sempre era esperar sair pirata ou em algum streaming e assistir em casa mesmo. Esse ano, porém, em algum dia entediada, provavelmente no início do mês, decidi assistir um filme no cinema. Aliás, não apenas no cinema, mas na sala VIP – curiosamente, foi One Battle After Another nessa ocasião – e iria aproveitar cada segundo de uma tela gigante, de um som apropriado, de um escuro real, de um espaço de coletividade, compartilhamento da mesma experiência de ver um filme. Esse processo se repetiu mais duas vezes ao longo do ano e é algo que pretendo continuar fazendo em 2026. De fato há algo de especial em ir numa sala de cinema, assistir um filme, voltar pra casa pensando nele. Se movimentar para ver um filme, sacrificar algo por isso – dinheiro, comodidade? – e receber algo também em troca: uma verdadeira experiência de cinema. Em 2026, porém, espero poder escrever na coluna de melhores do ano que minha experiência mais especial foi ir na inauguração de algum cinema de rua que, se Deus quiser, vai ser construído ou revitalizado ou ocupado na cidade de Natal.


Nicholas Correa

Normalmente, quando faço esse tipo de lista, eu dispenso algumas coisas, como rankings, e também abraço outras, como alguns filmes feitos no ano anterior, mas que, por uma contingência ou outra, só pude assistir no ano seguinte. Eu gosto de deixar a lista reter um certo espírito de rebeldia ou que comunique algo do caos que é acompanhar (ou tentar acompanhar) um ano de cinema. Pois o que falar de 2025? Um ano cheio de experiências marcantes que tiveram a ver não só com um passado recente como também distante, seja nas retrospectivas que acompanhei, seja na ida a festivais ou na admiração longínqua de mostras online. De longa-metragens vistos em salas imensas à performances feitas na presença de algumas poucas pessoas, foi um ano rico e espero refletir essa riqueza aqui:

5 Lançamentos de 2025

  1. ¡Aoquic iez in Mexico! (¡Ya México no existirá más!) – Annalisa D. Quagliata Blanco
  2. Crystal Palace/Ovum – Linda Scobie
  3. O que a natureza te conta – Hong Sang-soo
  4. Portales – Elena Duque
  5. The Mastermind – Kelly Reichardt

Filme antigo visto pela primeira vez

Cure (1997), Kiyoshi Kurosawa.

Momento cinematográfico pessoal do ano

As sessões e os debates da 3ª edição do FENDA.


Renan Eduardo

5 Lançamentos de 2025

1. Cassino (Gianluca Cozza, 2024-25)

Como escrevi em um recente texto, considero um dos filmes mais radicais de nosso tempo. Cassino tem um equilíbrio raro entre o formalismo aguçado e a aposta na subjetividade. Põe em primeiro plano uma masculinidade marginal, quase indomável, que se concretiza na mais pura fragilidade.

2. Lloyd Wong, Unfinished (Lesley Loksi Chan, 2025)

Possivelmente meu filme favorito, entre as competitivas, da 27ª edição do FestCurtasBH. Trata-se de um filme feito com as últimas imagens de Lloyd Wong, registradas por ele mesmo, antes de seu falecimento em função de complicações do vírus HIV. O arquivo, que é assombrado por uma certa aura fúnebre, revela uma complexa elaboração de Wong sobre questões que soam como vanguardistas até para os nossos tempos. Lesley, por seu exímio trabalho de montagem, não deixa esse sujeito ser capturado por nossa simples comoção, e sim faz de Wong um pensamento e uma existência que aponta sempre para o futuro. Choque de tempos no arquivo.

3. Aquele que viu o abismo (Gregorio Gananian e Negro Leo, 2024-25)

Aquele que viu o abismo é um daqueles filmes difíceis de pôr em palavras, de tentar traduzir textualmente a experiência fílmica em texto. Sem sombra de dúvidas um filme-transe que quer a hipnose, não a atenção plena. Filme que depende mais de nosso engajamento com o som do que com as imagens – liberdade para fechar os olhos. Atonal: me faz pensar mais em Arrigo Barnabé do que no cinema.

4. Cartas do Absurdo (Gabraz, 2025)

Filme essencialmente para ser visto na sala de cinema que demanda, sobretudo, uma experiência relacional de tempo. A barbárie convoca a irresolubilidade da imagem — seja opaca, seja transparente. É preciso navegar para chegar ao cais.

5. The Mastermind (Kelly Reichardt, 2025)

The Mastermind é, antes de tudo, um filme de crime que encena o fracasso e a deriva. Nele, Kelly Reichardt reafirma sua aposta em dramas de pequena escala e narrativas focadas no indivíduo comum — o sujeito que, precisando deslocar-se de um ponto a outro, perambula sem rumo em busca de sentido para sua existência, apesar de carregar a obrigação de uma tarefa a cumprir. Com esse filme mais recente, a diretora parece atestar, uma vez mais, a falência do pacto social estadunidense em relação ao proletário olhando, contudo, para suas minoridades.

Filme antigo visto pela primeira vez

Cedo Demais, Tarde Demais (Danielle Huillet e Jean-Marie Straub, 1982)

É, sem dúvida, um dos filmes mais encantadores e hipnóticos que já vi. Trata-se da obra mais Lumière que o cinema já produziu — não como referência temática, mas como método: uma câmera, um tripé e o vento nas árvores. Um filme que atesta seu próprio lugar na História, situando-se em um interregno: chegou tarde demais para as revoluções do século XX e cedo demais para as que estão em devir. Resta-lhe, portanto, perscrutar a finitude — os vestígios e rastros, apagados ou ainda visíveis, que os sujeitos inscrevem no espaço: materialismo cinematográfico por excelência.

Momento cinematográfico pessoal do ano

Mostra “Quando eu sou o outro: duplos, espelhos e imitações”, programada por Luiz Fernando Coutinho, quando pude ver Heat (Michael Mann, 1995) no cinema pela primeira vez. Michael Mann faz um elegante filme de assalto romântico, um faroeste urbano na noturna Los Angeles, um filme etéreo que me dá vontade de flanar pela cidade. Ver no cinema foi certamente muito especial.


Rodrigo Sampaio Cauhi

5 Lançamentos de 2025

1 – Cloud クラウド ou Cloud – Nuvem de Vingança (2024)* – Dir: Kiyoshi Kurosawa. *Lançamento comercial nas salas de cinema do Brasil em 2025.

2 – Portales ou Portais (2025) – Dir: Elena Duque

3 – ¡Aoquic iez in Mexico! (¡Ya México no existirá más!) ou Aoquic iez no México! O México não existirá mais! (2024)* – Dir: Annalisa D. Quagliata Blanco. *Exibição na terceira edição do FENDA – Festival Experimental de Artes Fílmicas

4 – One Battle After the Other ou Uma Batalha Após a Outra (2025) – Dir: Paul Thomas Anderson

5 – Sinners ou Pecadores (2025) – Dir: Ryan Coogler

Filme antigo visto pela primeira vez

Muito mais difícil, no entanto, foi selecionar apenas um grande filme, mais antigo, visto pela primeira vez em 2025. Minha indicação fica com Level Five (1995) de Chris Marker, com menções honrosas para dois colossos de dois gênios italianos: I pugni in tasca (1965) de Marco Bellocchio e La sindrome di Stendhal (1996) de Dario Argento.

Momento cinematográfico pessoal do ano

Como momento cinematográfico pessoal do ano, registro aqui uma fortuita história acontecida em território chileno. Em Santiago por alguns dias, me organizei para visitar a Cineteca Nacional do Chile. Para o dia escolhido, a programação do espaço contava com a exibição de Nosferatu, eine Symphonie des Grauens (1922), clássico de Murnau que, assim como outras versões da obra vampiresca de Bram Stoker, recuperavam atenção no início do ano pelo lançamento do remake pobre de Robert Eggers. Na sala escura e lotada até o último assento, um vídeo estranho começa a ser reproduzido. Não se tratava das famosas sombras do filme alemão, mas sim de uma reencarnação mais sórdida e irônica do mal: Nosferatu, una escenita criolla (1973) bailava desavisadamente na tela, sem apresentação da curadoria, sem presença na programação oficial e sem resposta para minhas ansiosas perguntas, que só seriam resolvidas após a sessão. Trata-se de um projeto realizado por estudantes de cinema de Santiago entre 1972 e 1973 com direção de Hernán Castellano. Com a chegada da ditadura militar no país, a única cópia 16mm foi enterrada no quintal de um dos atores, sendo encaminhada para processos de conservação e restauração só a partir do anos 90. Considerado como desaparecido por décadas, o desbundado curta-metragem chileno, em versão digitalizada há pouco tempo, foi exibido em sessão dupla com o famoso filme de terror que o inspirou. É daquelas sessões das quais nunca vou me esquecer.


Rubens Fabricio Anzolin

5 Lançamentos de 2025

1. Misericórdia (Alain Guiraudie, 2025)

Guiraudie é, hoje, meu cineasta francês favorito em atividade. Misericórdia recupera um instinto que já havia em O estranho no lago (2013) para rebobinar o falso thriller hitchcockiano, fantasiado de romance bucólico cuir, sem qualquer pitada de obviedade. A clareza com que decupa as cenas, com que mapeia um ambiente artesanal e onírico, quase poético, para desviar-se dele através do rigor e da piada, da atitude jocosa, que muitas vezes vai lembrar o teatro, é efetivamente um gesto muito surpreendente. As bases de seus filmes podem ser as mesmas muitas vezes, mas toda entrega é distinta. Nesse sentido é um cineasta da imagem, da verdade e da mentira, do visto/jamais visto, como são também seus antecessores hitchcockianos (Godard, Shyamalan, De Palma). Um cinema de ruídos internos, de farsas diante de suas promessas, mas que só ocorre efetivamente quando dinamita aquilo que montou previamente bem diante dos olhos do espectador. A cena do padre com a piroca é das coisas mais delirantes da temporada.

2. Kickflip (Lucca Filippin, 2025)

Junto com o longa-metragem de Wesley Pereira de Castro e Fábio Rogério, Um minuto é uma eternidade para quem está sofrendo (2025), parece ter sido o grande marco do cinema brasileiro de invenção. É certamente um denominador histórico, antes por ter sido o primeiro a deslocar tantos pontos divergentes e somá-los a partir de um prisma concentrado: é o filme dos jovens emos dos anos 2000, o trabalho da juventude perdida, das imagens do lixo e dos arquivos, de uma crueza e depressão pós-millenial, mas também de um projeto estético que só acontece quando tudo deixa de acontecer: o tédio é um instrumento vital, cruel e até mesmo horrendo diante de uma juventude para quem, antes mesmo do cinema, a própria vida é opaca.

3. The Mastermind (Kelly Reitchardt, 2025)

Kelly Reichardt é, a tempos, uma das grandes vozes emergentes dos Anos 90 no cinema americano. É provavelmente, também, das grandes cineastas em atividade no mundo. Mas The Mastermind não estaria aqui apenas por isso, afinal, grandes cineastas nem sempre fazem bons filmes. Acontece que esta pequena peça de falso crime é composta por uma temporalidade amiúde, ao mesmo tempo que tenaz, que permeia as ações de seu pequeno grupo de personagens como um todo. Josh O’Connor, que viveu o ano de sua carreira em 2025, encontra aqui seu melhor personagem, numa espécie de homem teimoso, detido ao fracasso, trabalhador anti-trabalho, mas ainda assim trabalhador, que costura a narrativa de modo descompromissado. É um filme não somente de planos e paisagens que vão além da beleza, uma vez que vasculham uma América falida e sentimental, mas também outra aula de sutileza de encenação, onde o jogo dos atores abre caminho para uma miríade de possibilidades.

4. Morte e Vida Madalena (Guto Parente, 2025)

Se falei antes que este foi um ano bastante marcante para o cinema brasiliero de invenção, com Kickflip e Um minuto é uma eternidade…, foi também o ano de uma das obras mais singulares oriundas de um dos fundadores do cinema pós-2010 — mesmo que iniciado antes de 2010 — no campo independente do Brasil. Morte e Vida Madalena é um projeto de anos, dirigido por Guto Parente, onde o próprio cinema independente do Brasil, e do Nordeste mais especificamente, na cena cearense, encontra uma versão felliniana para suas dores e sabores. Além de ser um filme de humor ímpar, catapultado por dois atores de graça particular, Noá Bonoba e Tavinho Teixeira, é também um filme síntese de dilemas invisibilizados no campo criativo, sobretudo pela figura da produtora de cinema. Ao mesmo tempo, é provável que seja dos trabalhos que melhor encapsulam um desejo de filmar, comum a geração de jovens realizadores dos anos 2010, diante das dificuldades e particularidades territoriais e artísticas que nosso campo apresenta, sem abrir mão de uma ousadia tenaz e de um desejo de inventar formas, ainda a serem descobertas, para o cinema de um país em reinvenção permanente.

5. Luta de Classes (Spike Lee, 2025)

É o filme que entrou na lista aos 45 do segundo tempo, ainda que o tenha assistido logo que estreou no catálogo da Apple TV — motivo pelo qual, me parece, pouca (ou nenhuma) gente escreveu, pensou, elogiou ou mesmo refutou. Passou no vazio, praticamente, o que é uma pena, mesmo para quem não se deu bem com esse novo trabalho de Spike Lee e Denzel Washington. Por isso mesmo há um senso se lembrança desse longa em relação a outros, que talvez até goste mais, mas que penso que não reservam momentos tão marcantes quanto algumas maquinações de Lee: a confusão dos homens negros vítimas de sequestro, o personagem de DW — “The King”, numa espécie de autocaricatura muito mordaz — buscando a redenção em seus tótens negros, nos porta retratos, a tormenta pelos fantasmas da glória, ou mesmo a brilhante participação de Jeffrey Wright, outro ator que melhora igual vinho a medida que o tempo passa. Ainda que irregular ou acidentado, há situações e circunstâncias, planos e contraplanos, simples cortes e movimentos, bem no miolo do filme, que nos lembram que não é qualquer imagem, hoje, que é capaz de possuir tantos significados como essas.

Momento cinematográfico pessoal do ano

Realizar o catálogo e a curadoria da mostra “Os Gestos de Narcisa Hirsch”, com Renan Eduardo e Ana Julia Silvino, e participação da Revista Descompasso, para o 27° FestCurtasBH. Sonho pessoal e profissional, em iluminar um cinema de luz própria.

Filme antigo visto pela primeira vez

Cinco dedos de violência (Jeong Chang-hwa, 1972)

Em um período de gripe bastante forte e tristeza incólume após algumas perdas, recorri ao remédio que melhor cura minhas dores: filmes de ação, de preferência antigos, baratos, e nem sempre bem feitos. Foi aí que resolvi aproveitar a gratuidade do meu gato-MUBI (que não pago desde os tempos da faculdade), para maratonar os filmes dos Shawn Brothers. Não tardou para dar conta de que, em maior ou menor grau, há uma aula de destreza e manuseio visual, de enquadramento sobretudo, de forças de divisão das imagens em cada parte e espaço, e como isso muitas vezes é negligenciado em um cânone ocidental de cinema. Cinco dedos de violência é uma obra-prima de maneirismos particulares, planos homéricos, e sobretudo vagabundo e espiritualmente tosco em seus melhores momentos. Foi o filme que me fez começar a lutar boxe, e só por isso poderia considerar o filme mais importante que vi em 2025.

Lista Final da Revista Descompasso com os 10 primeiros colocados

¡Aoquic iez in Mexico!, de Annalisa D. Quagliata Blanco (10 pontos)

Salomé, de André Antônio (9 pontos)

O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho (8 pontos)

The Mastermind, de Kelly Reitchardt (8 pontos)

Cloud – Nuvem de Vingança, de Kiyoshi Kurosawa (8 pontos)

Morte e Vida Madalena, de Guto Parente (7 pontos)

Kickflip, de Lucca Filippin (7 pontos)

Portales, de Elena Duque (7 pontos)

Nuit obscure: Ain’t I a Child?, de Sylvain George (6 pontos)

10º Dry Leaf, de Alexandre Koberidze 

Misericórdia, de Alain Guiraudie

Cassino, de Gianluca Cozza

Tardes de soledad, de Albert Serra (5 pontos e 1° lugar em listas individuais para todos filmes)

Autor

  • Revista Descompasso

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