O visível do invisível

Kosmos (Narcisa Hirsch, Rubén Guzman e Robert Cahen, 2017) é um filme objetivo: como já está dado em seu título, é uma obra “sobre” o universo. Contudo, poucas coisas são menos objetivas e simples do que o universo, afinal, este é um terreno vasto e incompreendido, quase inconcebível pela sua grandeza. Quando confrontados por tal questão, é necessário se questionar: “Como apresentar o universo dentro de uma tela?”, e aí nos aproximamos ao que Hirsch, Guzman e Cahen se dispuseram a investigar: não se trata de um filme de sobres, mas sim de “comos”, não porque a forma subjuga o tema, mas porque o reestrutura em sua complexidade. A matéria, então, ganha corpo na arte, que, por sua vez, está à mercê da experimentação. 

A primeira cena revela uma torneira fixada na parede, inicialmente aberta. Em seguida, ela é fechada, mas não completamente: um filete de água escapa do bico de modo a formar gotas que caem em intervalos espaçados, quase hesitantes. Progressivamente mais próxima ao bocal, a cena se repete em looping até enquadrar apenas a água que se acumula, criando uma tensão que a permite desafiar a gravidade por alguns segundos antes de tornar-se gota. A imagem se encontra enquadrada centralmente em um círculo de bordas turbas que delimitam o espaço visível da cena, dispondo ao olhar somente a torneira. Posteriormente, o looping passa a impedir a formação da gota, nos deixando apenas com uma sequência de “quases”.

Então, após o acúmulo de tensão, tudo explode: quando finalmente vemos o cair da gota, a imagem é desacelerada. Um som de explosão estridente acompanha seu movimento e a imagem torna-se uma frenética sequência de telas pretas e brancas. A tensão da água na torneira mal instalada se transforma no nascimento do universo; em uma explosão, tudo surge. Há um caráter poético à ação de trabalhar com uma imagem corriqueira a fim de mudá-la apenas o suficiente para que se exija uma atenção do olhar. O filme vai ao encontro de algo tão pequeno do mundo, como uma gota em uma torneira, e o transforma no Big Bang. Uma coisa minúscula, ironicamente, se transforma em imagem de uma inconcebível grandeza, como se nosso universo todo pudesse caber em uma gotinha que cai. Opera-se um jogo que vai do micro ao macro, voltando novamente ao micro. 

Esse é o regime de imagem adotado pelos diretores para trabalhar uma ideia tão abstrata e abrangente a fim de torná-la palpável ou até sensível: a apropriação das aparências do cotidiano se modifica através dos artifícios da linguagem audiovisual. Tal modo permite ficcionalizar o tema a ponto de o delimitar, de tocá-lo ou ser tocado. Essa concepção é o que Eduardo Pellejero teoriza como a ideia de metáfora em sentido literal ou como deslocamento da atenção, isto é, a operação poética em si, deslocar a figura para que se torne forma. A tensão iminente da explosão não se dá porque uma série de signos associados à ideia de explodir são apresentados, e sim porque se cria um acúmulo de tensão através da repetição de uma ação ínfima, “tornando visível o que de outra maneira permaneceria invisível.” 

Em Kosmos, uma paisagem de um campo no inverno, um close-up de uma caneta que escreve em um papel, a fumaça de um incêndio tomando conta da paisagem natural e um besouro se enterrando, todas estão recortadas para exigir atenção plena no centro de tudo, como quem já define o punctum da coisa. O barulho das chamas crepitando na floresta são estridentes demais para a distância entre a câmera e a cena, o mesmo acontece com o volume da caneta que passa no papel e com os passos besouro que caminha pela terra. As imagens são ruidosas e de baixa qualidade, como se fossem apenas o espectro daqueles objetos. Tudo isso é acompanhado de uma trilha sonora etérea, fantasmagórica. Constrói-se em sua precariedade e inverossimilhança uma familiaridade suficiente para o reconhecimento, junto a uma estranheza que nos faz questionar o que está diante de nós — um besouro já não é mais um besouro, menos ainda a alegoria para seja lá o que for. As imagens, portanto, figuram como assombrações que nos fazem questionar o que é real dentro dos limites da realidade 

Como ato final, é evidenciado a unicidade de todos esses elementos, colocando o ser humano como parte integral de um sistema horizontal de importância dentro desse universo. Essa conclusão nos é estruturada a partir de uma sequência de dupla exposição entre um rio e uma floresta. Os elementos se misturam, complexificando as texturas de seus terrenos, até que dentro de uma manipulação entre sombras e luzes, revela-se um rosto idoso em meio a paisagem. Suas rugas se misturam com o movimento da correnteza e sua velha idade se choca com o tamanho das incontáveis árvores que compõem a densa floresta. Sustenta-se então os paralelos do passar do tempo em todas as estruturas do cosmos. O incessante movimento da correnteza e o adensamento da flora não acontecem de um dia pro outro, às vezes nem sequer no tempo de uma vida humana. Essa mesma humanidade aqui é posta como simbiótica aos outros elementos à medida que o rosto só surge graças às texturas apresentadas pela floresta e o rio. E então surge, diante dos nossos corpos, o universo inteiro em forma de imagens.

Autor

  • Maria Sucar

    Licencianda em artes visuais pela UFRN e potiguar. Atualmente coordena e faz curadoria no Gambiarra Cineclube na cidade do Natal. Atuou como júri jovem na 25 Mostra de Cinema de Tiradentes e no 17 Panorama Coisa de Cinema. Contribuiu como crítica no 23 FestCurtasBH e nas revistas F(r)icções, Zanza e Descompasso.

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