Um destino noturno para as sensações

Uma sessão de curtas sempre condena os filmes ao esquecimento ou nos condena a não esquecer jamais um filme. Uma sessão de curtas é sempre permeada por fantasmas, ou bem por insinuações que nunca chegarão a se concretizar. Segunda-feira chego em Tiradentes para ver a primeira sessão da Mostra Foco depois de dois longas. A noite já se instaurou, é preciso dizer. As pessoas já foram reconhecidas, o Cine-Tenda é como uma Madeleine: todas as lembranças que pareciam perdidas em algum lugar da memória, em algum movimento do corpo, em algum desejo de cair encontram-se ressuscitadas. Não todas: as que importam. 

Fez-se noite e temos diante de nós uma tela enorme, os nossos corpos já se encontram embalsamados pela constância de uma posição, pelo calor dos reencontros, pelas retinas fatigadas, a procura de um acontecimento. Crash (Gabriela Mureb, 2025) nos convida à atenção sonora, à musicalidade maquínica do massacre de um carro. Tudo parece se reduzir a um gesto e a alguns enquadramentos: por vezes temos a visão em primeira pessoa daquele que coordena a máquina esmagadora, por vezes assistimos em terceira pessoa a um aparelho que tem um polegar opositor gigante e um único imperativo: fazer a forma reconhecível do carro voltar ao estado de destroço. O som nos leva ao delírio, são ruídos cuja origem se deixa inferir pela própria imagem visual, mas que até então na nossa vida não tinham sido embalsamados pelo verniz da atenção. Somos convidados a, com o deleite da duração, observar, através do recorte de outra máquina, a própria câmera. Crash é como um Anti-Crash cronenberguiano, uma vez que não há um elogio da fusão homem-máquina, porque a instância homem já se encontra sucumbida, existem tão somente máquinas, que nós incessantemente não cansaremos de antropomorfizar. É possível notar ainda o exercício de variação do filme, que insiste na decupagem alternada entre visões que se instauraram desde o início para observar com cuidado a máquina e dançar ao som de ruídos estridentes que em geral nos recusamos a ouvir. 

Continuando com a impostação musical da primeira sessão da Mostra foco, Outros Santos (Jorge Polo e Guilherme Souza, 2026) aposta em solos de guitarra alucinados como força motriz para a gênese de imagens. Ainda que o filme seja permeado por intertítulos que remontam à história de um sequestrador de escravizados que dá nome a uma praia, o convite parece ser menos o da enunciação e mais o da imersão nas texturas da matéria. Matéria alucinada de um mangue, matéria sobre matéria, de um líquido espesso escorrendo sobre pedras, de uma mão que descasca uma laranja e redescobre o encanto do mundo, que esteve sempre ali, e que no entanto nós tínhamos nos negado a fitar. Um prazer infantil é evocado, aquele do tempo das garatujas, em que tateávamos partes do mundo que depois se tornaram proibidas ao toque. Uma experiência da conjugação de sentidos que não se experiencia na vida útil, codificada, mecânica. Esse mergulho na qualidade tátil de todas as matérias captura por inteiro o espectador e funciona como aquilo que ansiava Jodorowsky em seu Duna: fazer de um filme uma viagem de LSD.

Para desafiar esse olhar encantando que tínhamos lançado sobre o mundo, o filme A praga do resíduo verde (Ramon Coutinho, 2026) quer quebrar a gramática tal qual conhecemos. A do cinema: é preciso matizar a seriedade dos planos contidos com verde, com inserts aleatórios, com cortes inesperados. A da língua: num mundo burocrático, diante de um problema em um condomínio, fala-se uma língua desconhecida. Ela existe e está no filme, mas permanece sem código. Uma língua que existe, é viva, mas ainda carece de repetições, transposições, analogias. O ímpeto do filme seja talvez o de lembrar que somos todos funcionários do capital, e que talvez não baste fazer uma “língua menor numa língua maior”. O convite é falar uma outra língua, ainda que não nos entendamos, ou justamente para não subjugar tudo ao fascínio fácil da cognição. 

O último filme da sessão O ponto do Mel (Miriam Oliveira e Pedro Lessa, 2026) nos coloca próximos ao chão justamente para nos fazer flutuar. Somos pegos de assalto pela frontalidade de trabalhadores que explicam o processo de moagem e fervura da cana de açúcar, algo como um corpo performático, que encena a si na explicação, que dissimula a própria possibilidade de explicação, ao mesmo tempo que cuida do processo. Esse corpo frontalmente capturado, remonta a forma de clipe do cinema de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, assim como acena a uma certa tradição dos documentários educativos brasileiros. O aboio embala o trabalho das mãos, o processo de catação da cana, como também a perdição da textura do melado que se espraia pela tela e faz com que reconsideremos a noção de mise-en-scène. Não são mais objetos nos espaço, mas uma certa viscosidade do mel. Uma mise-en-scène de texturas. 

Sair da primeira sessão da Mostra Foco é como sair da onda de uma droga. Não é possível voltar àquele estado, recuperar aquela maneira de encadear os sentidos que tínhamos aprendido em silêncio na sala escura. Não se sabe ao certo como seguir a vida depois de tamanho assalto. Há um grande desamparo.

Autor