Last Updated on: 31st janeiro 2026, 09:52 am
Politiktok (Álvaro Andrade Alves, 2026) é, evidentemente, um filme de dispositivo. Com exceção de algumas cartelas iniciais, toda a projeção é composta por imagens capturadas na rede social TikTok, como o próprio título sugere. A obra apresenta uma outra delimitação: acompanha o período que antecede e inclui o dia do segundo turno das eleições brasileiras de 2022. A proposta é realizar um passeio guiado pelo algoritmo da plataforma, mostrando o conteúdo que era entregue aos usuários em um dos momentos mais importantes da redemocratização.
Com foco predominante em lives de criadores de conteúdo, tanto de apoiadores de Lula quanto de Bolsonaro, a montagem constrói um mosaico etnográfico dos discursos e interações que polarizaram o debate político. O filme também intercala lives de outras pessoas e alguns memes de temática política, que funcionam como breves momentos de respiro no fluxo das cisões partidárias.
Duas imagens do bolsonarismo atravessaram a Mostra Aurora nestes dias de festival. Como comentei em outro texto desta cobertura, Meu Tio da Câmera (Bernard Lessa, 2026) provocou uma onda de rejeição às cenas em que seu protagonista aparece em manifestações pró-Bolsonaro. Em Politiktok, as reações foram completamente distintas: diante de discursos de extrema-direita, predominaram as gargalhadas. A montagem que se pretende neutra acabou por reforçar um certo exotismo dessas figuras. A operação é quase antagônica à de Bernard Lessa, mas, assim como aquela, parece incapaz de dar conta da complexidade desse fenômeno político, tratando-o ora como traição individual, ora como caricatura distante.
Dessa forma, o filme ancora sua narrativa na figura dos criadores que monetizam sua imagem e buscam influência política na rede social. Ao optar por uma operação de montagem que aspira expor simetricamente os “dois lados” do fanatismo, a obra acaba ratificando o discurso dos sujeitos, tratando o embate como uma disputa entre posições individuais. Com isso, oculta o papel estruturante do algoritmo, mecanismo que impulsiona determinado conteúdo, a viralidade e a própria economia de atenção na qual esses corpos e falas se inserem. O problema deixa de ser entendido como sistêmico e passa a ser apresentado como mera opção ou convicção pessoal, esvaziando a crítica à plataforma enquanto dispositivo de modulação política.
Outro ponto de atenção é que o filme escapa do que foi central para as eleições de 2022: os memes. É seguro afirmar que Jair Bolsonaro foi eleito em 2018, em parte, por sua capacidade memética. Diversos virais que circularam nas redes, somados aos evidentes interesses financeiros da burguesia, consolidaram a imagem de um “mito” ou de um “tiozão sem filtro”, mascarando seu projeto político real. Não examinar com mais atenção o fenômeno dos memes é perder o cerne da disputa política contemporânea, que há anos se desenrola nesse território de ambiguidades.
As lives, muitas vezes com pouquíssimos espectadores, não representam o núcleo do problema, nem do embate nas redes sociais. Olhar para os memes, por outro lado, significa etnografar uma linguagem de riqueza política e histórica inegável, muito mais do que as transmissões ao vivo de pessoas comuns, que, embora válidas como registro, não detêm a mesma força simbólica e transformadora no cenário eleitoral digital. A operação fílmica é tão vazia que se torna incapaz de reacender o debate sobre o “cinema de redes”, tão presente no pensamento crítico dos últimos anos.

