O cinema em sua órbita, a imagem como clinâmen

Pela primeira vez exibida em retrospectiva, ainda que incompleta, no FENDA (Festival Experimental de Artes Fílmicas), a filmografia de Darks Miranda lança um olhar obsessivo às imagens. Seu filme mais conhecido, A Maldição Tropical (2016), já demonstrava uma sensibilidade orientada à ficção científica, ou ainda, à incorporação modernista dos traços assépticos das estações espaciais. A sessão do dia 5 de agosto é um mergulho em sua visão cósmica: morcegos, insetos, televisão, meteoros, gosma, ginástica artística, jatos de água, explosões, lançamentos de foguete. Ao mesmo tempo que as figuras parecem apresentar afinidades eletivas umas em relação às outras, elas são desviadas de tal forma de suas composições de origem que se perdem no espaço. Ao ver os filmes de Miranda, temos certeza que a última convicção modernista foi exumada. As formas manifestas do cinema contemporâneo estão, afinal, diante de nossos olhos. O cinema contemporâneo, no entanto, segue a predicação rohmeriana: é uma arte do espaço. O que conta no cinema de Miranda é o valor expressivo das relações de dimensão.

A preocupação de como posicionar um corpo é levada até o limite em Toda cor abandonada é violenta (2014). A partir de imagens filmadas de uma televisão por uma câmera digital, vemos uma apresentação de ginástica artística. Os corpos eretos e flexionados vão sendo a cada sequência extraviados de seus contextos, até que esqueçamos que “aquilo” são ginastas. Vemos tão somente traços, e posteriormente, traços sobre o fundo branco, que vai lentamente invadindo a tela. A herança impressionista é posta em relevo, afinal, ao mostrar as ginastas em seus ângulos espontâneos, Miranda ambiciona  depurar as formas de maneira a chegar ao puro vetor do movimento. O estudo de proporções é sampleado junto aos áudios provindos de práticas sadomasoquistas. Uma imagem ou outra desse mesmo imaginário aparece no filme. Conforme Miranda expôs em seu comentário após a sessão, o título do filme é também um material de arquivo, foi coletado em um texto de Roland Barthes sobre Cy Twombly. Barthes diz : “da escrita ele retém o gesto, não o produto”, é também nessa direção que podemos interpretar o filme, basta o corpo como irrupção de movimento no espaço em branco, como marca na planaridade da tela. 

Os filmes que se seguiram na sessão são quase irmãos. O primeiro deles, A figura da quimera seria mais adequada (2023, Darks Miranda e Juno B.) exibe imagens de morcego em série provindas do cinema de horror, de estudos científicos, do youtube, em resumo: são muitos os interesses de produzir tais imagens, mas a maneira de se apropriar delas e remontá-las enfatiza as relações espaciais entre as figuras e o fundo. A deformação própria à cartilagem do morcego que respira interessa como dado pictórico no quadro. Os corpos de atores do primeiro cinema são vistos desde a sua disfuncionalidade, seus movimentos engendram uma série de propostas de reconfiguração para o espaço. O burlesco torna-se assim um elemento contemplativo. Os possíveis sentidos do filme se insinuam a partir da contiguidade, mesmo que uma imagem venha necessariamente após a outra, como impõe-nos o tempo. Como Rohmer pontua, é somente com o advento da montagem que a preocupação com a composição espacial se estabelece, é a partir da possibilidade de encadear as sequências que nos questionamos sobre “o caráter expressivo de cada um delas: por exemplo, tornando perceptíveis movimentos de amplitude muito reduzida…”.

Os efeitos são muito importantes nos filmes de Miranda, eles, além de camadas expressivas que revelam seu ímpeto composicional, explicitam a vocação monstruosa do cinema. Por isso, A figura da quimera seria mais adequada conta com um filtro vermelho, que vez ou outra emerge, e com efeitos sonoros, que destoam entre trilhas inscritas no universo de horror, da ficção científica, e tão simplesmente barulhos. Os morcegos encadeiam-se de maneira obsessiva, apontam para outro dado dessa poética: a coleção, a associação entre tipos do mesmo gênero, que faz com que algo como um sistema comparatista superior seja erigido, mas sua finalidade última, seria simplesmente experimentar as imagens, em suas ínfimas variações. Vale ressaltar ainda o título do filme, que remonta ao texto de Jean Louis Comolli, Elogio do cine-monstro. Como um mantra que acompanha Miranda, “a figura da quimera” põe em relevo o cinema como esse aglomerado de partes disjuntas suturadas de forma a colocar seus fragmentos em evidência.

Em Uma noite perigosa na ilha de Vulcano (2022), último filme da noite, a pesquisa de Miranda salta aos olhos. São elencadas cenas de 44 filmes de ficção científica do período da corrida espacial subtraídos de suas personagens. As trucagens que envolvem a criação de planetas longínquos, a aridez própria à falta de vida humana, são trazidas à tela. Há uma série de imagens que se interessam pelo dado pictórico mínimo. Como numa concepção atomística de mundo, Miranda está na busca pelo clinâmen. O mundo é um fundo contínuo sobre o qual se sobrepõem átomos abundantes, séries de jatos, de decolagens, de pontos luminosos discretos, o desvio é a promessa de inauguração de um novo horizonte. Essa parece ser também a esperança de quem se lança aos mistérios dos outros planetas. Além da viagem, espera-se a grande descoberta, que mudaria a vida de maneira definitiva. 

Durante todo o filme, o estudo dos cenários e das múltiplas variações luminosas para a qualificação do espaço passam por algumas fases. Em um primeiro momento, o elemento água é explorado, com seu volume fixo e forma variável, depois as plasticidade do fogo, das explosões, da chama, por fim, o aparecimento de vida orgânica, o crescimento de plantas sobre a aridez das superfícies até então sem vida emergem. Nada tem exatamente a força de uma figura, estamos, como já dito, diante de uma encenação atomística de mundo, temos as unidades mínimas que a tudo compõem, não as composições. 

A primeira sessão dos filmes de Miranda aponta-nos em uma direção: seu movimento é o de submersão na história do cinema, para fazer emergir a trilha própria às imagens, bem como as junturas aparentes que as ligam. A imagem não é mais uma hierarquia entre centro e periferia, mas uma tessitura saturada de variações, as formas mínimas do visível, os jogos de proporção. O cinema em sua última noite de sono, sonhou seu sonho mais antigo. Cinema, arte do espaço.  

Autor