O som é mais rápido que a luz

Last Updated on: 31st janeiro 2024, 05:13 pm

Em julho de 2021, a artista potiguar Jota Mombaça foi convidada pelo programa Park Nights para apresentar uma performance intitulada Can You Sound Like Two Thousands?”1. A performance ocorreu de forma simultânea no Serpentine Pavillion em Londres e no canal da Boiler Room no YouTube. O trabalho consistia em reunir uma quantidade grande de pessoas e espalhá-las pelo pavilhão onde cada uma teria um microfone e um texto escrito pela artista. A dinâmica é simples: todos permanecem sentados em seu respectivo lugar e, simultaneamente, leem o texto. Durante 46 minutos, é construída uma paisagem sonora a partir da junção de vozes de “dois mil” sujeitos. Me disponho aqui a refletir sobre a versão em vídeo da performance que se encontra ainda disponível no YouTube e mais precisamente no processo de criação da imagem que busca capturar a experiência sensorial da performance. 

No início vemos um enquadramento que se movimenta de fora para dentro, em direção ao pavilhão, e em seguida em direção a artista, onde permanece por alguns segundos até caminhar por dentro do espaço. A imagem treme e avança vagarosamente junto aos passos de quem segura a câmera. No fundo ouve-se uma gravação que compila falas entrecortadas e incompreensíveis de diferentes pessoas que se atropelam. Jota anuncia o início da performance declamando a premissa do experimento e suas condições: trata-se de um “ambiente cacofônico” que permite a participação da forma que for decidida pelo participante, seja em silêncio, em gritos, em repetição. Uma câmera fixa a grava sentada, enquadrada de corpo inteiro e, a cada pausa, volta para a imagem caminhante citada anteriormente, que se movimenta ainda trêmula e vagarosa pela extensão do pavilhão. 

Frame de “Can you sound like two thousand?”

Jota compreende que, ao enxergar pelo som, é possível criar uma paisagem imagética através de um processo amplificador de vozes que surgem de todos os cantos. Esse jogo de plano e contraplano operado pela montagem evidencia justamente a matéria sonora como uma força capaz de conduzir a experiência dentro do espaço – o ambiente que se forma a partir da cacofonia. A experiência perpassa uma relação íntima com o ato de enxergar, que não ocorre estritamente através da visão. Pois, se há por volta de 20 pessoas participando da performance, a imagem de duas mil vozes se dá por intermédio daquilo que se ouve. 

A coletividade, atrelada à liberdade de escolha de contribuição dada pela artista aos participantes, coloca a criação sonora no campo da imprevisibilidade. Não há um combinado prévio de quando ou como falar, em que momento silenciar-se, qual o tom deve ser empregado. Dessas inúmeras possibilidades nasce um som ruidoso que se desvia do conteúdo dito e o torna apenas vibração sonora. Há um texto sendo lido, mas a mensagem verbalizada é a imponência da sonoridade, de vozes que se amplificam e se multiplicam. Essa imprevisibilidade resulta em múltiplas expressões sonoras que ocorrem dos choques e das combinações dessas vozes participantes. Todos lêem trechos diferentes do texto em uma altura de voz semelhante, até que alguém decide gritar. Em certo momento só se ouve Jota e, de repente, é impossível ouvi-la. Há de se perguntar se há realmente alguma palavra sendo dita, pois tudo vira ruído e, então, palavras voltam a serem reconhecidas.

A imagem, por sua vez, busca acompanhar todos esses movimentos que oscilam à medida que a performance se desenrola. A câmera se posiciona no espaço como um corpo que é afetado pela experiência sonora, agindo de acordo com o que lhe é apresentado. Ao passo que as vozes vão aparecendo e os sons vão tornando-se mais rápidos e eufóricos, é possível perceber que o dispositivo que antes andava vagarosamente, apresenta apenas um borrão de uma imagem que a lente não teve tempo de captar. Os cortes tornam-se mais rápidos e vemos cada vez mais rostos diferentes posicionados pelo pavilhão. Ao fim, enquanto o áudio que abre a performance é tocado e se mistura com as vozes ativas daqueles que estão participando, as imagens também se sobrepõem, substituindo os cortes secos que eram utilizados nas trocas de câmera.

A mesma liberdade que é ofertada aos participantes da performance é prontamente utilizada por aqueles que a registram, pois o som conduz a dança dos sentidos. A imagem que vemos com os olhos se materializa de forma ruidosa e imprevisível, pois a visualidade que é entregue pelo som nasce dessas mesmas qualidades. Dessa forma, soar como dois mil depende justamente da capacidade do som de nos fazer enxergar para além do que o olho vê.

  1. “Você pode soar como dois mil?” em tradução livre. ↩︎

Autor

  • Maria Sucar

    Licencianda em artes visuais pela UFRN e potiguar. Atualmente coordena e faz curadoria no Gambiarra Cineclube na cidade do Natal. Atuou como júri jovem na 25 Mostra de Cinema de Tiradentes e no 17 Panorama Coisa de Cinema. Contribuiu como crítica no 23 FestCurtasBH e nas revistas F(r)icções, Zanza e Descompasso.

    mariasucar@outlook.com Sucar Maria