Inocência preservada

Marty Mouser não é mau; é apenas burro. Isso o diferencia substancialmente dos protagonistas anteriores de seu diretor: Connie Nikas de Bom Comportamento (2017) e Howard Ratner de Joias Brutas (2019). Marty Mouser também não é um fodido, mas aparenta ser. Vende sapatos na loja do tio, tem uma amante no beco de casa, detesta a mãe por motivos supérfluos, esbanja sede de poder por um infantil desejo de autoafirmação. O fato deste sujeito ser encarnado por um ator muito mais esguio e franzino que os anteriores, Robert Pattinson e Adam Sandler respectivamente, também oferece ao personagem um certo nível de fragilidade. Ao contrário do Coonie de Bom Comportamento, em idade similar a Timothée Chalamet (Pattinson também tinha 29 quando filmou Good Time), Marty Mouser parece mais um aspirante a adulto do que um adulto em si. Sua própria habilidade, a “razão de estar” no mundo, é amplamente desconsiderada perante a sociedade. “Tênis de mesa, isso é um esporte?”, diz alguém a certa altura do filme. Inclusive a amante de Marty, a coroa rica Key Stone, interpretada por Gwyneth Paltrow, reconhece no garoto uma absoluta ausência de verniz funcional, ao lembrá-lo que, além de não ter emprego e dinheiro, o rapaz era incapaz de fazer planos. Sua existência, em suma, é inútil. Sua ambição também.

Os trabalhos anteriores dos irmãos Safdie — especialmente os dois acima citados, co-dirigidos com o irmão Benny — ofereciam aos personagens e espectadores uma linha dramática bastante segura, ainda que fortemente diferenciada da horda de filmes médios americanos de seu tempo. Os protagonistas, em maioria membros da comunidade judaica da América, viam-se diante de um problema pessoal ou sistêmico, de resolução quase impossível, cujo desafio era dobrado e elevado à níveis radicais, fazendo com que a chegada a um “ponto final” se tornasse exaustivamente infactível. Para o Coonie de Good Time era o assalto ao banco com o irmão disfuncional, já para Howard em Uncut Gems era a quitação da dívida e o enriquecimento estável — lhe garantindo o livramento do pecado capital da avareza. Estes desafios eram servidos no campo cinematográfico de modo muito similar a um jogo, onde, à medida que as fases (no caso, as sequências) avançam, torna-se mais e mais difícil escapar ileso delas. Ambos filmes compunham uma lógica de ação e reação bastante rara, onde a consequência de uma atitude anterior logo aparecia na página seguinte da trama, com grau de dificuldade redobrado. No entanto, existia ainda um objetivo claro a ser perseguido pelos personagens. Os erros e desvios, as desavenças propriamente, eram consequências diretas de uma chaga  individual única, sem retorno.

No caso de Marty, o desafio é menos de ordem ampla e sociológica, menos sobre uma ameaça do “sistema” em si, e mais sobre a doença individual da América moderna, encarnada pelo judeu imigrante pós-Segunda Guerra Mundial, que precisa provar-se não só como um ícone estadunidense — isto é, provar-se como alguém que pertence aquela pátria (e não a uma pátria dizimada) —, mas também como um ícone maior que o seu próprio mundo, o Lower East Side dos Anos 1950. Sua mitomania, em partes similar a de Howard em Joias Brutas, deriva de uma fome pessoal. Não basta tão somente que seja visto como o melhor mesa-tenista do mundo. Seu desejo de grandiloquência, na verdade, é um desejo também de êxodo das suas próprias origens: provar-se superior à loja de sapatos do tio, estar acima da obrigação da paternidade, garantir que é melhor que sua própria família — lembremos que Marty recusa a mãe constantemente.

Isso tudo faz do Marty Mouser encarnado por Timothée Chalamet um sujeito inocente, por mais paradoxal que ele seja. Provido de uma inescapável habilidade de vender coisas (de um sapato com numeração errada até sua própria imagem), seus conflitos internos são absolutamente desnutridos de malícia, correspondendo a um ar juvenil de auto-afirmação. A imagem que fabrica de si para o(s) outro(s) é muito menos frágil do que a imagem real que tem de si mesmo. Seu corpo é adepto das fantasias, das múltiplas personalidades que acopla — esportista de elite, amante, trambiqueiro —, mas sua essência é retilínea, homogênea, e é isso que verdadeiramente o assombra. Seu desafio é contra sua imagem.

Não à toa, Marty reluta a uma ideia de núcleo, de âmago parental. Pois sua vitória como esportista é uma vitória da subjetividade — lembremos que, a rigor, o jogo final não vale de nada, é senão uma propaganda para vender canetas. Ser considerado o melhor jogador de pingue-pongue de seu tempo é mais um legado imaterial, uma extensão da sua habilidade individual, que um legado de sua gente de verdade. O filho na barriga da amante, circunstância única e verdadeira neste mundo, aguarda em casa. Lá fora, para a eternidade (assim como as pirâmides do Egito, que Marty diz terem sido erguidas pelos próprios judeus), o que importa é a protuberância da imagem, a extensão de um sonho de imagem — uma miragem, afinal — fabricada à sorte de uma imaginação grandiloquënte, ainda que falsa.

Esse dado contornava também os outros protagonistas da dupla, mas o relevo moral destas disfuncionalidades provava-se interessante justamente pelo modo como o corpo de um adulto, em crise de magnificência frente ao mundo — fracassar em cumprir uma missão impossível, a isso poderia ser reduzido todas as tramas dos Safdies —, era capaz de computar os dois extremos do comportamento em um símbolo só. Eis a grande graça do icônico Howard de Joias Brutas, por exemplo. Por um lado, existe a verniz do palhaço de Adam Sandler, cingida ao corpo de um coroa de 50 e muitos anos; por outro lado, há a magia em ver este mesmo coroa de 50 e muitos anos agir como uma criança, em um pensamento obcecado, praticamente infantil em sua esperança de happy end. Com Marty Mauser é diferente, pois a ambição de sua trajetória soa unilateral: não há conflito presente na essência do personagem de Thimotée Chalamet, uma vez que este corpo corresponde, nas ruínas, exatamente àquilo que ele é: alguém que, esforçando-se muito para sair de seu rótulo (o judeu, o vendedor de sapatos, o pai precoce, o imigrante desconhecido), permanece cada vez mais inelutavelmente agarrado a ele.

É por isso que espanta que este trabalho solo de Josh Safdie, pela primeira vez artisticamente separado do irmão Benny, soe bem mais comportado do que os filmes anteriores. Em muitos sentidos, permanece ainda uma linha de cinema onde o veículo primordial é o corpo do ator, mas ela encontra-se dirimida por todos os outros elementos de cena presentes no filme. Em Marty Supreme, o delírio dos extremos — função principal da mise- en-scéne ágil que os Safdie construíram na última década e meia — parece planejado a conta-gotas. Pensemos sobretudo num uso muito incisivo da trilha sonora, quase como uma marcha a acompanhar as aventuras desse jovem. Ou mesmo no modo como uma das cenas mais especiais do filme, a do golpe dado por Marty e seu parceiro Tyler, The Creator em um bando de white trashs, termina não com a característica sobreposição de vozes da discussão entre os dois, levando ao limite a situação, quando o plano dá errado e estão sendo perseguidos, mas com uma fina camada musical que torna palatável a energia caótica daquela circunstância.

Se havia algo realmente único e particular na filmografia recente dos irmãos, especialmente nos projetos recentes, era a capacidade de transformar os problemas da cena em imagem. Seus filmes eram equações absolutamente materiais, e sua habilidade quase artesanal de direção fazia com que a trajetória dos protagonistas obcecados fosse exaustivamente delirante pelo modo com que colocavam em quadro os desafios. A influência muito clara e direta de um cinema independente e feito na rua, sobretudo nos Anos 1970 e 1980 nos Estados Unidos, sob a égide de figuras como John Cassavetes, Walter Hill e Sidney Lumet, serviu de estepe para que a dupla confeccionasse algumas das sequências excruciantes do cinema americano contemporâneo: a venda da jóia em Uncut Gems, a sequência do assalto ao banco em Good Time, o delírio final de Só Deus Sabe (2014)… Em Marty Supreme, essa lógica centrípeta do acúmulo do corpo no quadro até permanece, mas encontra-se constantemente interrompida por um labirinto de circunstâncias e personagens que fazem do desafio desse pseudo-adulto muito mais uma brincadeira infantil sem consequências do que uma chaga circunscrita no dilema moral desse ser.

Ao contrário dos demais universos, a geografia de Marty Supreme é estupendamente mais ampla: migramos de países para acompanhar o ping-pong, vamos do alto clero ao baixo clero de Nova Iorque, conhecemos os grandes campeonatos de tênis-de-mesa e também os boliches e botecos onde os jovens fazem apostas. Ou seja, se antes o panteão ao alcance dos sujeitos dos Safdies eram os espaços — habitados e abandonados — de uma cidade, agora não há mais limites, pode-se navegar por tudo. Se em Good Time ou Uncut Gems o destino gritava que “o mundo não é seu”1, agora ele parece entregar a Mouser (que bem poderia chamar-se mouse, uma vez que, tal qual um rato, ocupa os espaços que não lhe são comuns) o universo de bandeja.

Por circunstância ou não de uma familiaridade com esses espaços, Josh Safdie desenha um trabalho onde os excessos encontram-se não mais na ordem do plano, mas na ascese de todos os elementos possíveis. São muitos os sub-núcleos dispostos para esse garoto, como se o mundo fosse menos uma descida ao inferno e mais um tour no parque de diversões. Não se tratam de sequências onde há uma consequência imediata em si, acentuando a gravidade do dilema, mas de subsequências feitas para escalonar e, logo depois, perderem de vista seu relevo no caminho do personagem. Toda a parte com Abel Ferrara tentando recuperar seu cão Moses/Moisés, por exemplo, é maravilhosa, ainda que sua duração e construção esteja dirimida em meio a outras subsequências que parecem querer dar ao dilema de Marty um fundo mais complicado do que ele naturalmente teria. 

Pontuei no começo deste texto que, a rigor, a existência de Marty Mouser era inútil. E de fato acho que seja. Não que o cinema e as artes precisem de existências “úteis” — isso sequer existe propriamente. Mas há algo bastante forte em personagens atravessando dilemas morais — e religiosos, como é fortemente o caso dos sujeitos anteriores dos Safdies — em uma crise com o mundo. De algum modo, os cineastas fizeram o trabalho recente de tentar nos provar que todas as coisas, por uma força mística que fosse, estavam interligadas (lembrar que Uncut Gems começa juntando as jóias achadas na Etiópia com a colonoscopia de Adam Sandler, assim como Marty Supreme vai fazer o  esperma do protagonista tornar-se a bola de pingue-pongue, na abertura do filme). Essa conexão múltipla, dos seres com o mundo, de uma força devoradora, representada exaustivamente pelas luzes e sonoridades sujas de Nova Iorque, era o que acompanhava os sujeitos até a danação, pois encapsulava uma impossibilidade de vitória deles frente ao mundo, uma vez que as escolhas erradas eram incapazes de serem convertidas. Good Time termina com a prisão; Uncut Gems com a morte. Ou seja, circunscrições cívicas (seja na sociedade “real” ou na sociedade do crime), que estabeleciam um limite humano para as jornadas individuais, um monstro coletivo devorador da grandeza narcísica individual.


Marty Supreme ignora as consequências de seu protagonista, dado o grau de sua incompetência, para fazê-lo retornar à estaca zero de seu desprezo. Ele terá enfim de ser tudo aquilo que passou o filme todo lutando para não ser: alguém normal, vendedor de sapatos, morador do Lower East Side, um pai de família. O retorno para a casa talvez signifique para Marty uma circunstância pior que a morte ou a prisão, mas revela também o grau médio de seu delírio e trajetória. No fim do dia, o garoto salvou sua pele, voltou ao lar, mas seus danos morais estão dirimidos de modo tão intenso, que sua existência encontra-se novamente perturbada. Malicioso, narcísico, arquetípico, Marty enganou e deslumbrou todas as situações e ambientes de modo tão exemplar que acabou por enganar inclusive o seu próprio destino. Imprestável, ele dá a volta ao mundo (literalmente), para acabar, enfim, justo onde nasceu: na média. Não famoso, não heroico, mas sim ordinário, comum. O mesmo acontece com Marty Supreme, que, assim como Mauser, tem lá suas grandes habilidades, seus momentos encantatórios, seus delírios (justos) de grandeza, mas, no fim do dia, parece bem mais comum, bem mais na média, do que esperávamos que fosse. Uma pena.

  1.  Há um belo texto publicado pelo colega Pedro Henrique Ferreira sobre Bom Comportamento que já decifrava este deslimite no personagem de Coonie Nikas. Disponível em: http://revistacinetica.com.br/nova/o-mundo-nao-e-seu/
    ↩︎

Autor

  • Rubens Fabricio Anzolin

    Curador/Programador da Mostra de Cinema de Tiradentes, do CineBH e da Mostra de Cinema de Ouro Preto. Crítico de cinema e editor da Revista Descompasso. Bacheral em Cinema e Audiovisual (UFPel) e mestrando em Artes Visuais (PPGAV/UFRGS). Possui textos publicados na Revista Multiplot, Revista Rocinante, Zagaia em Revista, Cinemateca do MAM, além de ensaios em livros e catálogos de mostras.

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