Recentemente, a Folha de São Paulo publicou uma lista com 50 votantes que elegeram “Os melhores filmes brasileiros do século XXI até agora”. À primeira vista, a lista parece carecer de um recorte temporal preciso para os amantes de números redondos ou anos que demarcam décadas. 2026 não soa exatamente um número atrativo para uma retrospectiva do século, mas, talvez em função de duas seleções seguidas de filmes brasileiros ao Oscar, isso tenha se tornado “urgente”. Pode-se dizer, com certa tranquilidade, que tudo relacionado ao cinema brasileiro no período de dezembro ao início de março — temporada de premiações como Oscar e Globo de Ouro — tem gerado considerável engajamento em torno da “questão nacional” do cinema. Nesse sentido, a escolha editorial da Folha pareceu acertada: mapear um certo interesse comum entre 50 pessoas ligadas ao cinema. Daí, habemus uma lista.
No começo deste ano, publicamos um texto de Nicholas Correa sobre o tratamento das listas de fim de ano, em diálogo com Elena Gorfinkel. Assino embaixo em praticamente tudo o que escreve, mas gostaria de reforçar um ponto em que discordo de Gorfinkel. Enquanto a autora defende que a prática de listar é acrítica ou a-histórica, penso que talvez o movimento seja justamente o oposto. Afinal, fazer listas é o trabalho de registro histórico de um pensamento crítico que realiza uma seleção e um arranjo a partir de um determinado prompt — neste caso, quais são os melhores filmes brasileiros do século até então. O que há de acrítico ou a-histórico nisso? Me parece, na verdade, que a listagem é a historicidade do pensamento: a forma de agrupar coisas, de registrar uma ordem advinda do pensamento crítico. O que fica de fora e o que entra provoca não apenas evidências históricas, mas também apagamentos de determinados filmes. Além disso, revela o pensamento crítico ao trazer à tona o repertório do votante, seus gostos, sua formação, as salas e os festivais que frequenta. Tudo isso é profundamente crítico e histórico.
No caso da lista da Folha, ela parece revelar algumas questões do pensamento crítico contemporâneo. Em primeiro lugar, curiosamente (ou não) os três primeiros colocados são filmes brasileiros que, de alguma forma, chegaram ao Oscar: Cidade de Deus, Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, respectivamente. O que não deixa de ser um dado no mínimo interessante. De saída, isso faz pensar que a votação dos melhores filmes brasileiros do século tem muito a ver com distribuição. De forma geral, todos os primeiros colocados tiveram ótima distribuição à época, evidentemente ligada a grandes distribuidoras como Globo Filmes ou Vitrine, e ainda hoje são exibidos com certa regularidade. O que me leva a crer que talvez uma das grandes questões que deixou de fora uma série de filmes interessantíssimos seja justamente a falta de uma exibição adequada ou de um trabalho continuado de manter essas obras em nossa memória pelo tempo necessário.
Kleber Mendonça Filho, por exemplo, tem quatro de seus longas entre os 25 primeiros colocados. Isso quer dizer que ele é o melhor diretor do século? De forma alguma. Evidencia, sim, um pensamento excessivamente calcado no presente, pois, inegavelmente, Kleber é o diretor mais falado do cinema brasileiro possivelmente desde Bacurau. É o nome que está na crista da onda e, consequentemente, isso se reflete nas listas.
Outro ponto que me parece recorrente é que, apesar de certa variação de épocas entre os dez primeiros colocados, a partir daí há uma predominância de filmes feitos de 2014 em diante. Se por um lado, o período que marca a retomada do cinema brasileiro é contemplada com um conjunto de filmes, tais como Cidade de Deus e Tropa de Elite, parece haver um hiato, evidentemente com algumas exceções, deste período até uma segunda fratura do cinema brasileiro: o golpe de 2016. Uma certa mudança na episteme do cinema, que passa a atender determinadas questões do presente retorna com força no conjunto dessa lista. O excesso de presente certamente é um sintoma que reflete um gesto histórico da nossa lida com as obras. Filmes feitos no começo do século parecem não caber, não ter espaço numa leitura excessivamente apegada às questões do presente. O que isso pode indicar é um certo desgaste já evidenciado com o cinema da retomada, uma leitura que pode estar associada à uma “cosmética” das obras que torna algo tão recente em já obsoleto. Sem dúvidas, isso ocorre por uma série de mudanças radicais que atravessaram a produção nos nossos trópicos nestes últimos 26 anos: a mudança da película pro digital, políticas públicas e leis de incentivo que tornaram possíveis uma emergência de novos realizadores, mais de uma década de governos de esquerda seguidos de uma forte política fascista de combate à cultura, a criação da Mostra Aurora, uma proliferação de festivais por todo o Brasil e uma série de outras agitações políticas. E isso, sem dúvida, é um problema, mas não deixa de revelar uma historicidade do nosso pensamento.
Outro ponto central, mas justificável, é a ausência de curtas-metragens. Há quem diga que não existe pé de igualdade entre curta e longas e que deveria haver uma lista específica para cada uma das metragens. Discordo. A história do cinema mundial, e também brasileira, é contada pelo longametragismo. Se pensarmos, por exemplo, no que se chamou de crise e retomada do cinema brasileiro, estamos evidentemente falando dos longas, uma vez que o curta não deixou de ser feito durante este período, muito pelo contrário. No recorte temporal proposto pela Folha, contudo, o que há de maior radicalidade inventiva e estética está no curtametragismo. Me parece incontornável pensar, por exemplo, numa lista de “melhores” filmes do século que não inclua o cinema de Lincoln Péricles — diretor que, até então, dirigiu apenas um longa. O que seria dessa lista se Aluguel: O Filme (2014) figurasse entre os primeiros colocados? O mesmo vale para André Novais Oliveira, diretor que contém alguns títulos entre os primeiros colocados, mas que teve Fantasmas (2010) deixado de lado.
Ainda assim, o cinéfilo voraz pode encontrar um conjunto de pérolas, quase sabotadores da lista, em meio aos filmes já consagrados. Se, por um lado, os primeiros colocados reforçam um certo imaginário do que seria o “bom cinema” brasileiro, por outro, há cavalos de Tróia que escapam a essa lógica. Filmes de invenção que não tiveram a devida distribuição, como Luz nos Trópicos, dirigido por Paula Gaitán (que certamente estaria entre os meus primeiros colocados) e Serras da Desordem, realizador da “velha-guarda” que assina esta obra-prima realizada em 2006, que figuram entre os primeiros colocados. Portanto, tanto nesta lista quanto fora dela, sobretudo fora, é possível vislumbrar um conjunto de vários cinemas brasileiros que o século construiu. O que se pode pensar também é uma série de fios que esta lista pode construir para o espectador que, por ventura, se interessar por algum desses realizadores e topar assistir outros filmes deste que não figuram aqui. Um ótimo exemplo disso, pode ser conhecer o cinema de Kléber Mendonça Filho por meio de seus curtas-metragens ou mesmo explorar a extensa filmografia de Paula Gaitán em filmes como Noite ou É rocha e rio, Negro Leo. Assim, se a lista pode reafirmar um certo padrão de gosto alinhado à indústria, para quem se dispuser a ver ao menos os 50 primeiros colocados, o percurso revelará não um cinema brasileiro, mas vários deles. Por fim, vale pensar, tomando livremente a formulação de Agamben, que o cinema brasieiro contemporâneo é aquele que ainda está no escuro, que não é visto ou que precisa de alguém que ilumine para que ele emerja das sombras.

