Previsão do Tempo: Abril/2026

Nunca é tarde para se prever o tempo. A Previsão do Tempo chega na metade de abril com um apanhado de acontecimentos estéticos e obras que mobilizaram nossos redatores no último mês. Há quem diga que, a segunda edição de algum periódico do ano — ou, nesse caso, o segundo mês — pode provocar uma sensação morna, regular, usual. Aqui, mesmo se a coluna revela os interesses de estudo e obsessões do momento dos nossos redatores, ela também revela, a cada mês, as diferentes formas de se relacionar com esses mesmos assuntos, o que pode ser sempre uma grata surpresa.

Sem mais delongas, na previsão deste mês, Egberto Santana relaciona sua ida ao futebol com seu primeiro filme sobre o tema; Helena Elias relata as particularidades de uma sessão de cinema no MAM; Lucas Honorato comenta o momento atual do debate sobre arte nas redes sociais a partir do episódio Vera Fischer Era Clubber no Cultura Livre e Nicholas Correa analisa um filme de Arthur Jafa a partir de Marilyn Times Five, de Bruce Conner. 

Boa leitura!

Um guerreiro sozinho em campo

por Egberto Santana

Em fevereiro, fui pela primeira vez a um estádio para assistir um jogo de futebol, ver o Corinthians perder para o Coritiba em casa. Não sou muito do esporte, diferentemente do meu irmão, corinthiano fanático que também estava no estádio pela primeira vez. Mas, ao entrar, fui levado pelos cantos da torcida. Não deixei de cantar e abraçar desconhecidos em nenhum momento que os gestos de apoio eram iniciados. Mal sabia que, algumas semanas depois, em março, eu iria assistir ao meu primeiro filme sobre futebol, Zidane – O Retrato de um Século, indicado por um amigo em um cineclube. O longa-metragem foi restrito ao circuito de videoarte e merece ter um resgate da cinefilia. Dezessete câmeras de alta definição registram uma partida entre o Real Madrid e o Villarreal, mas da perspectiva do craque Zidane. Enquanto a minha visão do estádio era de um excelente plano aberto, no canto inferior esquerdo mais alto da arquibancada, no qual eu tinha que aguçar o olhar para seguir a bola, no filme uma porção de planos fechados e médios no corpo do jogador em movimento dão conta de focar Zidane. Às vezes com um parceiro ou outro adversário no fundo ou ao lado, bem como a torcida ao fundo que olha com atenção ao craque. A operação estilística também é múltipla: em certos momentos o post-rock da banda Mogwai, caracterizado por um instrumental calmo e contemplativo, tematiza a aventura do personagem no filme, sem ofuscar demais as sirenes e o grito da torcida; as legendas refletem o pensamento de Zidane sobre futebol e sociedade, e no intervalo do jogo vemos imagens de guerra, tiroteios, descobertas científicas e tecnológicas — o retrato do século XXI. Mais do que deslocar o olhar tradicional de um jogo, o filme isola o que é uma experiência estética máxima do coletivo e, com isso, expande as noções possíveis dessa mesma experiência ao ser vista em tela. De repente, em minutos, não se vê mais um craque imponente e lendário, mas um guerreiro solitário em campo, afastado dos seus companheiros de batalha, porém, dotado de uma perseverança e capacidade máxima de derrotar o inimigo — à exemplo do inesperado momento em que, subitamente, uma corrida e toque de bola de Zidane a um colega leva ao gol, após quase 90 minutos de pouco controle de bola e um placar desfavorável. As legendas de Zidane (o filme e o jogador) expressam uma visão de uma lenda do futebol que soa bem melancólica e trágica sobre esse trabalho, em que ele chega a comentar que às vezes inicia um jogo como se já soubesse tudo que poderia acontecer em seguida, como se o destino já estivesse resolvido e programado e nada que ele fizesse pudesse mudar. Quando está imerso no jogo, ele diz que pode decidir o que escutar da torcida: alguém se mexendo na cadeira, tossindo, cochichando e, se o jogo vai mal, os insultos se destacam. “Você nunca está sozinho”. Ao lado do filme, a fala embaralha a noção mais tradicional do esporte, pois o que se vê é um homem sozinho e desacompanhado. Uma fala que até responde uma das minhas indagações mais curiosas no estádio: “qual é o impacto de toda essa união, de gritos de motivação e xingamentos, no ouvido dos jogadores?” Tudo e nada ao mesmo tempo.

Uma sessão de cinema

por Helena Elias

Sexta-feira à noite. Antes de me lançar aos mistérios noturnos, vou ao cinema. À cinemateca do MAM. Há algo muito precioso que a cinefilia obsessiva dos últimos anos me deu, a possibilidade de, em qualquer lugar do mundo, me livrar do fardo do turismo. O turista que vai ao cinema deixa de ser turista, ele se confunde com os outros corpos locais que procuram uma atividade na sexta-feira à noite. É como se a alcunha “espectador” suprimisse qualquer diferença específica. E, diante de uma sala de cinema na cidade alheia, sou presenteada com o estranhamento do olhar poético. Quase tudo parece ser digno de nota. O tom de vermelho que impregna a visão desde a ante sala e se alastra por entre as cadeiras. Ruy Gardnier, o programador da cinemateca, que, sem falhar, apresenta a todas as sessões, destacando o caráter eventural de cada uma delas. Gardnier diz das ocasiões anteriores de exibição do filme no Rio de Janeiro, qual cópia fora exibida em cada oportunidade, como que acreditando que a reprodução de um filme inaugura algo no mundo. Como se, nós, espectadores, estivéssemos legados a para sempre não sermos mais os mesmos, depois de participar desse acontecimento na história das sessões de cinema do MAM. Cruza-se uma contingência na história pessoal com uma contingência na história das exibições. Bonito crer na força virulenta de uma sessão cinematográfica, o cinema, essa quimera, que transita entre um filho pródigo da indústria bélica e o sonho mais longínquo e ainda vivo de uma arte das massas. Que a nós, cinéfilos, reste algo para além da fraternidade das metáforas.

Outras referências

por Lucas Honorato


O comentariado das redes sociais tem sido uma recente zona de observação da recepção pública que, dependendo dos algoritmos de cada rede social, é possível ver as pequenas bolhas sendo mantidas ou perfuradas. Nesse impulso observativo recente fui capturado obsessivamente na reação caricaturalmente careta do comentariado de algumas redes sociais acerca da banda fluminense Vera Fischer Era Clubber no programa Cultura Livre. Banda que habita a cena underground carioca há uns anos e tem seu álbum de estreia VERAS I lançado em 2025 e neste ano ganha uma repercussão majoritariamente negativa com sua apresentação no programa da TV Cultura.

Apesar de particularmente gostar da banda, de seu repertório de referências citadas e não citadas, o seu tom irônico e seu diálogo com a cena noturna carioca, o que me instiga na reação histérica do público médio não é o desagrado em si, mas sim a sua reatividade intolerante ao outro e ao estranho. Os deboches massivos e genéricos com a comparação à esquete de Hermes e Renato “Também Sou Hype – Bichinho de Matar com Pedra”, são apenas respostas Kitsch que também deslocam questões de gênero envolvidas na banda. Já a comparação ao meme “Sim, Sim, Sim” de Bala Desejo, também no Cultura Livre soa mais como uma aversão à diferença do que à uma crítica material ao trabalho artístico em si e seus determinados contextos e estéticas. A reatividade taxativa me parece nessa questão da diferença uma certa impossibilidade de compreensão do outro que dialoga com uma crescente valorização do mercado da nostalgia e de padronizações de consumo cada vez maiores na indústria musical. O gosto parece agir mais como viés de confirmação de si, o que torna um modo mimado de lidar com o consumo artístico.

Esses dois negritos acabam sendo um possível ponto de contradição quando içamos à crítica à banda Bala Desejo que no comentariado na época do meme gerou-se uma “revolta de classe”, ressentida pelo seu “baby-nepotismo”, mas também pelo seu aspecto “performático” (termo em moda e absolutamente descaracterizado das diversas questões teóricas ao seu conceito). A contradição emerge no momento que a sua produção estética musical e visual aparenta agir pela validação dos cânones da MPB que se tornam cosméticos e pasteurizados com o aval técnico e virtuoso de sua musicalidade que os colocam num consumo aprazível e dentro desse mercado da nostalgia, ao mesmo tempo que longe do padrão hegemônico, o que cria esse estranhamento e sua reprodução memética que pouco fere a sua imagem. Já Vera Fischer Era Clubber o repertório é outro, sua aproximação musical entre Noporn, Crystal Castles e outras referências possui um alinhamento à essa estética eletrônica dos anos 2000 enquanto adquire uma camada irônica ou pós-irônica, própria da contemporaneidade, no qual o rir de e com se mistura. Assim, o que se articula não é uma identidade autorizada ao “bom gosto”, mas sim uma compreensão e uma releitura incorporada em banda da música Baile de peruas de Noporn. 

“Auto-ironia a toda prova… O que era kitsch virou brega [e as] imagens femininas carregadas e datadas [ ] acabou forçando a barra [em uma] auto-ironia a toda prova”. 

Nesse sentido, Veras I age diferente da reinterpretação ao status quo musical de Bala Desejo, porém num mix “pós-irônico”  que ao mesmo tempo que é próprio do tempo, a sua dificuldade de leitura também a é. 

Máquina de Terrores e de Êxtases

por Nicholas Correa

Assistindo recentemente Ms Hillsonga (2017), um dos curtas de Arthur Jafa, a estrutura de repetição aliada às imagens de arquivo me chamou atenção no que ela tinha de semelhante a um outro grande expoente do found-footage, Bruce Conner. Mais precisamente no esquema da repetição e da diferença, a série de imagens e vídeos de Jafa me lembrava alguns dos jogos associativos e sensualistas de Conner em Report, A Movie e, talvez de um modo oblíquo, mas não menos importante, Marilyn Times Five. Neste último, Conner pega trechos de um filme pornográfico em que uma sósia de Marilyn Monroe dança ao som de “I’m through with love” e repete o trecho cinco vezes (com pequenas variações em cada uma), ao ponto de que a repetição das imagens e da música causa um senso de esgotamento e fadiga, uma subversão da vocação original do segmento. Lembro-me da descrição de Paul Arthur de que assistir a esse filme é como “estar preso em uma máquina de desejos que foi à loucura”. Admito que a comparação com o trabalho de Jafa pode parecer complicada: Conner nesse filme coloca em questionamento um olhar escopofílico, eminentemente masculino, sobre imagens que tomam seu tempo, que possuem o ritmo da ação da sósia de Marilyn; os vídeos e fotografias organizados por Jafa não possuem muito tempo para si mesmos na montagem, eles chegam e vão no espaço de frações de segundo. Ms Hillsonga não é apenas um filme da retina, da imagem que sobrevive na memória retiniana, mas principalmente do privilégio do ritmo sobre a duração. Além disso, é um filme mosaico, sobre imagens dissonantes da experiência do sujeito negro nos Estados Unidos. Tudo aparentemente muito distante da concentração escopofílica de Conner. Mas ainda assim, acredito que alguma coisa se retém na comparação. O filme de Jafa, além de também consistir em uma série de imagens que se repete com pequenas variações entre cada repetição, ele também possui um aspecto sensualista, o aspecto da batida da música de Jeff Mills “Medicine Man” que dita o ritmo frenético da torrente de fotografias. Trazendo um pouco da descrição de Michael Boyce Gillespie de Dreams are colder than death, a de um mosaico de impressões da história negra, Ms Hillsonga, nos seus poucos quatro minutos, junta imagens de várias cargas afetivas diferentes: violência, injustiça social, cenas de filmes, dança, música, liturgias, rituais religiosos e até mesmo fotos do próprio realizador. Uma tentativa de apreensão do presente elusivo que também invoca os filmes de tom apocalíptico de Conner. Em contraste com o projeto modernista, em que a revelação da experiência estética era tida como ocorrendo de súbito, no espaço de um instante, o presente de Jafa é ambíguo, a revelação se dá pelo ritmo, pela sucessão. Revelação e apocalipse parecem ocupar esse espaço intersticial, mas sempre ambíguo, entre passado e futuro. 

Autor

  • Revista Descompasso

    A Descompasso foi criada em agosto de 2023 com o objetivo de ser um veículo independente de exercício, prática e expressão da escrita crítica sobre o cinema, a música e outras manifestações artísticas.

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