As notícias pelo rádio confirmam: o engarrafamento não cessará em Paris, pelo menos não nesta noite. Em Sexta-feira à noite (Claire Denis, 2002), os desconhecidos que habitam o mesmo carro são capturados com proximidade. Conhecemos as mãos de Laure, a expressão facial de Jean que se perde por entre a fumaça de seu cigarro, as estações de rádio, que ao serem cambiadas rapidamente, sugerem climas possíveis a serem instaurados. Há uma asfixia gerada pela alternância entre os fragmentos de corpos e os planos mais abertos, dos carros presos no engarrafamento. Quando Jean desce do carro, Laure não aguenta ficar longe: convida-o para ir jantar na casa de seus amigos. Isso seria, no entanto, ignorar o trilho descarrilhado da noite. Numa espécie de premonição que permeia a tela, Laure imagina estar com seus amigos, Jean, e o filho deles a chorar. Uma traição aos desígnios noturnos.
Laure e Jean dirigem sem destino. Vemos os lumes que se destacam por entre o fundo escuro que escoe. A trilha orquestral de ritmo muitíssimo rápido confere um ar agônico à cena, como se uma sequência de perseguição invadisse um filme do tipo boy meets girl. Como nos versos de Ítalo Diblasi, foge-se de algo que não existe: “visto-me de fuga/ e fujo (em guerra)/ como se rugisse/ de dentro/ um leão/ que sequer existe/ mas foge”. Estamos diante da noite em fuga: seus segredos profundos; seu messianismo; que permanece sem explicação, isso é posto em relevo, como via provável de ser percorrida. Foge-se, enfim, para o cerne da noite, para que tudo não se perca no convencionalismo de um encontro com um casal de amigos. A fuga é o aceite ao convite ao qual ainda não sabemos.
Denis evoca aqui a fuga como forma e não como conteúdo, ou como a única maneira de chegar perto desse “objeto”. Trata-se antes de um evento do que de um objeto. O evento do encontro. Por isso a cinematografista Agnès Godard filma com a câmera super aproximada, com movimentos livres, algo que, na verdade, não se deixa ser filmado: o momento exato do primeiro olhar. A pergunta reincidente, que permeia a cinematografia de Denis, seria exatamente: como olhar? Como olhar para um desconhecido que entra em seu carro e muda seus planos? Talvez não exista esse olhar, ou, como Luiz Carlos Oliveira Jr. tão bem descreve, ele seja precedido pelo desejo de ser absorvido pela imagem. E por isso, toda a significatividade do momento decisivo se desmorona, nos entregamos à embriaguez visual. O projeto denisiano se direciona abertamente ao que não pode ser filmado, ao que não é passível de ser enquadrado. E para filmá-lo, sabendo-o impossível, só resta se deixar contaminar, é preciso, para falar com Arthur Omar, “de uma mão vibrando no mesmo registo do objeto.”
Ao contrário dos filmes mais conhecidos da diretora, para citar aqui dois, Bom trabalho (1999) e O Intruso (2004), Sexta-feira à noite não lida com “grandes temas” como respectivamente as contradições que orbitam a legião estrangeira e um transplante de coração. É claro que não são tão simplesmente tais temas que qualificam o trabalho de Denis, que é amplamente conhecido pela maneira como se aproxima deles: a partir de composições sensuais que põem em crise a possibilidade de abordá-los de maneira racional. Ao se virar para um one night stand, ela opera um milagre, pois o que é desvelado é que a menor das nossas experiências sexuais carrega uma grande revelação acerca do mundo. A dificuldade de prescindir delas vem menos de uma necessidade puramente sexual, e mais do meio de revelação que elas se mostram ser.
Na periferia do quadro, com quase nenhuma iluminação, vemos a face de Jean sobrepor-se a de Laure. Os rostos são banhados pelo vermelho dos faróis. Há um grande contraste na cena, que marca toda a composição do filme, assim como as sombras, que nascem de paisagens e feições angulosas. Nos momentos de maior saturação, as imagens chegam a remeter ao expressionismo de Lyonel Feininger. Toda superfície é chamuscada por textura, toda retidão aparente é entrecortada por ângulos. A aproximação recebe maior investimento, de forma que não consigamos separar as duas figuras, elas são coadunadas ao todo escuro e estão deformadas. A proximidade as deforma.
A estranha fraternidade de estranhos que se encontram em uma noite qualquer. O carinho de Jean ao amassar os cachos de Laure. Conforme Emmanuèle Bernheim, autora do livro no qual se baseia o filme descreve, “Laure absorvia o respiro de Frédéric, aquela névoa branca que parecia bem menos fria do que o ar da noite.” Eles são os primeiros a entrar no hotel que tinha baixado os preços por causa da greve. A penumbra se adensa conforme adentramos o quarto e os contrapontos de néons e outras fontes de luz se tornam mais escassos. A trilha sonora impositiva de então cede espaço ao som direto. Aos suspiros. Ao barulho do cinto sendo desabotoado. A respiração fica mais oscilante. Chegamos ao auge da fragmentação dos corpos, que nos direciona, no entanto, à sensação muito específica: estamos fadadas a guardar para sempre a imagem de uma parte do corpo de alguém.
A refeição depois do sexo. É notável como os corpos exercem magnetismo um sobre o outro, diante da situação algo formal de estar no restaurante. Laure e Jean especulam sobre o casal ao lado, fazem surgir as pequenas ficções, que permeiam o convívio rápido e intenso do encontro. Ao voltar ao hotel, ficam juntos. A alvorada impõe o maior ensinamento aos viajantes noturnos: quando se chega ao cerne, o invólucro da noite se desfaz. É precisamente isso que interessa à Claire Denis e à Agnès Godard: enquadrar aquilo que não tem cerne, que na iminência de se fechar, escapa. Por isso as sequências tão recorrentes de rodovias, de carros e de corpos em seus momentos de maior deformação. O objetivo, por vezes, remete a uma antiga obsessão cinematográfica: chegar à imagem pura do movimento, ao fluxo primordial de força movente. Na derradeira fuga do filme vemos Laure correr por entre as ruas que amanhecem, fadada ao desamparo, carregando consigo as imagens daquela noite.
Sexta-feira à noite é um filme pouquíssimo comentado da filmografia de Denis. Mas ali seu maior ímpeto é demonstrado, não através dos grandes temas, mas pela atenção ao menor milagre do mundo – em vias de se desfazer. Conforme descreve Marcelo Reis de Mello: “este desespero prognata/ esta urgência/ de agarrar – com os dentes/ um segundo qualquer/ uma fração qualquer do tempo/ em que a eternidade/ nos olha nos olhos”. Denis ata-se à ética da experiência, ao enquadrar o que não se domestica, com a certeza de que filmar assim inaugura uma tarefa impossível.

