Depois da abertura da 4ª edição do FENDA – Festival Experimental de Artes Fílmicas, no dia seguinte, começa a primeira sessão da mostra internacional de curtas. Com seis filmes, a sessão retomou, seja de maneira lúdica, simbólica, irônica ou agressiva, questões muito particulares à respeito dos sentidos. O programa ao mesmo tempo traz à tona o quanto certas contingências na exibição e certas expectativas na recepção são parte integral da fruição estética desses objetos. Muito surpreendente também a recorrência de noções muito caras ao período do alto modernismo (aquele que parecia estar esquecido já algum tempo), principalmente o pensamento sobre o “instante” e o trabalho com a superfície plana, mas que aparecem reformuladas e tensionadas de formas distintas a cada filme.
O filme que explora a questão da superfície de forma mais clara é o primeiro, Felt, do cineasta estadunidense Blake Williams e que ironicamente foi exibido em circunstâncias particulares. O curta, gravado originalmente em 3D, foi exibido em uma versão 2D pelo festival, o que acabou por fazer com que as experimentações de Williams com superfícies, planos do enquadramento, escala e paralaxe ganhassem uma outra conotação. A obra explora uma viagem do cineasta pelas montanhas e cânions da região oeste americana e paralelamente o vemos construir um origami. Mas antes de apresentar qualquer uma dessas imagens, Felt abre com fotografias vistas através de um estereoscópio. O objeto assombra o restante das imagens do filme com a noção de fusão retiniana, algo que em um filme em 3D o faria voltar aos seus próprios meios de captação e recepção. A exibição em duas dimensões, por outro lado, faz com que os planos de Williams passem a se relacionar mais intimamente com a superfície da tela. As cenas com o origami, por outro lado, se destacam como imagens de contraste e de impossibilidade. Se por muito tempo, cineastas de vanguarda valorizavam a baixa profundidade para enfatizar a superfície plana da tela, a presença sentida (e aqui a palavra ganha a importância devida) do origami na palma da mão seria o equivalente desse alinhamento com as três dimensões. O filme acaba com uma dupla sensação de descoberta e indagação.
O sucinto Nursery Rhymes (Holy) Water, de Belinda Kazeem Kaminski, segue a sessão e retoma as superfícies em um estúdio. Nele, atores em trajes brancos recriam cenas de Daughters of Dust de Julie Dash, enquanto na faixa de áudio escutamos três crianças sussurrando cânticos e falando sobre uma cerimônia de batismo que remete aos batismos forçados do período escravagista americano. Os atores se colocam em posições estáticas sobre um fundo azul e vemos imagens intercaladas da superfície das vestes brancas sobre esse mesmo fundo. Neste trabalho com as tramas e com a separação de primeiro e segundo plano, o filme se abre para uma dimensão ao mesmo tempo histórica e imaginativa na medida que vemos esses signos dispostos naquela imensidão azul, esperando para serem novamente colocados em um outro contexto, seja ele lembrado ou sonhado.
Com a imaginação bem ativa, entramos no trabalho seguinte: a produção portuguesa Estou a sentir qualquer coisa, de Nuno Pimentel. Somos introduzidos a uma série de paisagens habitadas por personagens invisíveis e inaudíveis. Só podemos intuir a presença desses personagens através de legendas que descrevem suas falas e, por vezes, suas ações (por vezes cômicas). Existe um certo senso de ludismo e brincadeira que, apesar de também estar presente nos demais filmes da mostra, aparece com bastante destaque nas legendas e na sua função sugestiva dentro dos tableau naturalistas que se estendem longamente pela duração do curta. O contraste não poderia ser maior com o curta seguinte, La búsqueda de la inmortalidad de Nicolás Zukerfeld: uma montagem rápida, em ritmo de um filme flicker, das páginas de um livro homônimo. Se há espaço para sugestão, ela acontece no ritmo atropelado e muitíssimo breve dos caracteres e das gravuras, filmados frame por frame. Com o pouco tempo para absorver as informações conseguimos intuir o conteúdo do livro e o senso de misticismo que algo como “imortalidade” pode sugerir. A eternidade ou a busca de um instante deslocado no tempo tão cara a Clement Greenberg, parece ser parte do norte da obra de Zukerfeld, trabalho partidário de uma recepção dada ao instante ínfimo, mas ele mesmo relacionado à uma eternidade inalcançável. Com dois filmes no meio da sessão, vamos de quadros pitorescos totalmente inseridos em uma temporalidade própria, a de seus personagens invisíveis, a imagens e signos ávidos por uma outra dimensão fora do tempo.
Com o breve filme de Zukerfeld, com pouco mais de quatro minutos, a presença do místico e do mitológico serve de gancho para o próximo filme, Aquiles era um twink de Henrique Domingues, talvez a obra mais aliada à sensibilidade pós-modernista dentre os outros da sessão. Parte colagem e em parte performance do próprio cineasta, o curta trabalha imagens e cenas tiradas de produtos culturais de massa de várias figuras mitológicas e religiosas, de Aquiles à São Sebastião. Domingues as mescla com imagens também da cultura popular de ícones contemporâneos, todos eles com um forte teor homoerótico, dando a ver uma tensão entre a virilidade masculina de tipos heróicos e mitológicos com um senso moderno de vulnerabilidade. Destaco o que me parecem ser dois instantes-chave dentro de um filme anárquico e caótico: a montagem de uma cena de Tróia (2004) em que o Aquiles de Brad Pitt assassina o Hector de Eric Bana e, no instante do ferimento letal, o filme corta para um detalhe da pintura A Incredulidade de São Tomé de Caravaggio; e o instante em que a tela se converte em um tríptico que parece se retrair em um fundo preto, com três telas verticais exibindo um feed pornográfico. Novamente, como na visualização 2D de Felt, temos a abstração dos objetos (neste caso, a carne) em superfícies planas. A presença sentida, seja de um origami, um corpo fetichizado ou das chagas de Cristo, é novamente uma questão de credulidade.
Em uma decisão curatorial que provavelmente buscou salvar os filmes anteriores de um espectador sobrecarregado, o último curta da sessão é o mais agressivo em termos sensoriais, mas também um trabalho que sumariza e fornece chaves para abordar alguns dos objetos que vieram antes dele na sessão. Flim Flam do austríaco Siegfried A. Fruhauf se volta para o tema da abstração e da ilusão ótica. Não tanto um filme sobre superfícies materiais, mas sobre padrões e quebras de expectativas.
Flim Flam abre com uma instrução clássica das ilusões de ótica em movimento, um pedido para que o público olhe para a primeira imagem focalizando o centro do enquadramento enquanto pontos pretos sobre um fundo branco realizam movimentos em padrões circulares. O título, que aparece logo em seguida, é distorcido pela retenção do movimento do plano anterior pela persistência retiniana. O que vemos então é uma série de objetos e símbolos em relação de binarismo, a começar com a imagem recorrente de uma zebra, o ser que encarna um padrão binário e simétrico no corpo. A imagem da zebra, por sua vez, também será apresentada de ponta cabeça, instante quase lúdico de reorientação espacial. Temos também quadros repletos de pontos de exclamações em um fundo preto e também o inverso, pontos de exclamação invertidos em um fundo branco. Esses planos de reorientação figurativa se alternam rapidamente, em flicker, colocando a retenção desses símbolos também no plano retiniano.
Entre outros padrões abstratos que se movimentam de maneira circular, sobrepostos ou de exibidos de forma alternada, a figuração parece ceder espaço para símbolos, traços e padrões luminosos. Não se trata mais de credulidade, mas de fenômenos ópticos muito primários e anteriores, mas não menos determinantes, à figuração e à presença, algo que a recorrência da zebra não deixa mentir. Assim como ilusões de ótica que envolvem imagens de duplo aspecto ou de profundidade ambígua, que estiveram no centro de debates modernistas sobre arte e ilusão, especialmente em se tratando de pintura, a ilusão que envolve movimento parece especialmente apta não só para o cinema “experimental” ou de vanguarda, mas principalmente para demonstrar o quanto esses efeitos são frutos de quebras de padrões e expectativas visuais. Poderíamos intuir uma outra quebra talvez tão radical quanto na fusão estereoscópica de Blake Williams e nos seus jogos com profundidade e paralaxe.
Se há algo que esses filmes parecem ressaltar, cada um a seu modo, é o quanto a figuração, assim como sua contraparte abstrata, envolvem não apenas um trabalho material, mas também algo de fora da realidade ontológica do objeto, algo que acontece da tela para fora. Por vezes de forma que exige uma imaginação ativa como nas cenas de gestos invisíveis de Nuno Pimentel ou no senso de presença dos estigmas de Cristo, outras de forma agressiva e impositiva como nos flicker films.

