Notas para encadernação – Ritmos e rituais de Elizabeth Price

Last Updated on: 15th janeiro 2024, 06:56 pm

Para introduzir estas notas sobre Elizabeth Price e a articulação da música, do som e dos ritmos em seu trabalho, convém lembrar da ocasião de uma entrevista sobre o seu projeto A Restoration (2016), comissionado pelo Ashmolean Museum, onde ela fala sobre a dimensão sensualista que tais elementos conferem à sua obra. A presença da música e de experimentações com a voz e com outros ritmos, é uma constante na obra de Price ao longo dos anos, algo que pode ser explicado em parte pelo seu histórico como musicista. Ela também demonstra uma preocupação com arquivos, registros e com a história que serão, por sua vez, dispostos e colocados para dialogar dentro de suas obras (no caso de A Restoration, ela trabalha com arquivos da própria instituição do Ashmolean). Existe no trabalho de Price a articulação de duas dimensões difíceis de conciliar: a primeira seria uma dimensão calcada no contraste de formas e dos materiais dispostos e que trabalha em um campo discursivo. A segunda se trata de um certo sensualismo, sensações e emoções coordenadas em uma forma comum por meio da música e dos ritmos, uma dimensão que extrapola o plano da palavra e da sintaxe. Tal dimensão intertextual e de contraposição de materiais pressupõe certos contrastes entre as partículas de significado que são difíceis de organizar por uma via sensorial. O empreendimento de Price com esses âmbitos conflitantes circunscreve também o horizonte e as problemáticas intrínsecas das utopias modernistas totalizantes. De maneira a refletir um pouco de seu raciocínio, é no espírito fragmentário e intuitivo, mas sem perder de vista um horizonte de sentido, que estas notas foram escritas.

1. A questão dos contrastes parece se colocar a serviço da exploração do passado, um trabalho arqueológico que pode ser em parte compreendido em The Tent (2010), um de seus primeiros trabalhos em vídeo. A obra de Price, já um pouco distante dos movimentos de vanguarda do século XX, não possui as mesmas ambições idealistas dos movimentos pregressos que ela aborda, Em The Tent (no caso, o trabalho do Systems Group nos anos 1970, e sobre um espaço imaginário idealizado por um de seus integrantes, James Moyes), ela mistura gestos e ritmos com palavras, uma pedagogia em nível tanto oral quanto escrito; já não lida com um olhar para um futuro unificado das formas, pelo contrário, olha para o passado e delineia os contrastes simbólicos, visão modernista versus olhar pós-moderno. Em The Tent vê-se letreiros sobre uma tela branca, registros de um sujeito folheando (e mais tarde dobrando e cortando) o catálogo, escuta-se na faixa de som música de drone, rock e ruído branco. Há um contraste em relação aos materiais que ela se apropria (imagem e texto de um catálogo sobre o grupo) e os meios em que eles são organizados, as teleologias são apresentadas em retrospecto.

Frame de The Tent (Elizabeth Price, 2010)

2. A visão enunciada em The Tent coloca as transformações como coisas passadas. Os avanços das tecnologias de comunicação já aconteceram e mudaram radicalmente os modos de vida. O olhar agora é retrospectivo e genealógico, quase satírico em seu aspecto discursivo e fragmentário. Não há um espaço de sensações unificadas como na proposta do Systems Group, mas sim um espaço semântico passível de ser reorganizado de múltiplas maneiras. Os comentários exibidos nos letreiros da instalação foram retirados de um catálogo de 1972, mas o texto foi reorganizado por Price para a exibição.

3. “Nós consideramos que o conceito de paraíso só é perfeito porque você nunca consegue acessá-lo nesta vida. Então quando nós tentamos ocupar nossa ordem imaginária nos deparamos com algumas surpresas. Então nós dançamos com alegria e medo.”1 – Trecho escrito retirado de The Tent.

4. Uma exploração mais potente sobre cultos e de quedas do “paraíso”, e mais metódica do ponto de vista sonoro e rítmico, é vista no trabalho seguinte de Price: The Woolworths Choir of 1979 (2012). A obra é dividida em três partes: em uma, Price explora a arquitetura do interior de uma igreja por meio de letreiros, modelos em 3D, um catálogo de imagens e conceitos arquitetônicos e fotografias; em seguida ela exibe fragmentos de um clipe da canção Out in the Streets do grupo The Shangri-las. Price conclui a obra relembrando o incêndio de uma unidade de Manchester da rede varejista Woolworths em 1979, esse trecho conta com uma exploração similar à do espaço da igreja, com modelos de computador, imagens de arquivo e letreiros. The Woolworths Choir of 1979 é construído sobre a metáfora de encadernação, do choir, da assemblagem das partes. Price expõe didaticamente as raízes etimológicas de Choir e Quire (que se referem à parte da igreja onde se organiza o coral) que remete tanto aos processos de encadernação e de artigos impressos quanto ao coro, o canto conjunto.

5. Estalos de dedos e salvas de palmas ditam o ritmo da montagem, da alternância de signos visuais (apresentação de documentos, modelo de imagem 3D de uma catedral, páginas de um dicionário de arquitetura, um show de música, imagens de arquivo do incêndio no Woolworth’s). The Woolworths Choir of 1979 é pedagógico e ao mesmo tempo ritualístico, um trabalho de exame historiográfico e ao mesmo tempo um trabalho de sensações coordenadas. O estalo, o gesto e a voz possuem uma função quase sintática, eles se situam nos interstícios entre uma imagem de arquivo e outra, organizando os registros como um enunciado, organizando os letreiros e as imagens como uma apresentação didática. Mas ao mesmo tempo, os estalos e a música também conferem um aspecto emocional ao empreendimento ao coordenar o ritmo dos motivos visuais e lhe conferindo uma cadência idiossincrática e fetichista. Como demonstra Erik Rutgrink, o trabalho de som traz à tona as sensações por detrás das informações e sua presença é tão assertiva que chega a solapar o domínio textual dos letreiros (RUTGRINK, 2014).2

Frame de The Woolworths Choir of 1979 (Elizabeth Price, 2012)

6. A transição da apresentação da igreja para as imagens de The Shangri-las ocorre precisamente quando, ao explorar a catedral, Price nos mostra certas imagens de conotação mundana e “secular” (como a narração informa): entalhes representando situações violentas perto dos assentos (Misericords) e as efígies situadas no piso. A música da banda informa um contexto, uma época e uma cultura: os anos 1960. Novas práticas culturais, novos cultos e novas formas de consumo. O espaço do Woolworths acaba por representar uma nova espiritualidade e novas formas de reunião (ou congregação). Novas espiritualidades também implicam novas formas de martírio (o sofrimento implicado na santidade cristã e a tragédia do incêndio de Woolworths).

7. O corpo humano, que é o objeto da dança e do sofrimento, também é o vetor dos gestos, dos estalos e das palmas. O ritmo da instalação está fundamentalmente implicado nesse processo de liturgia e martírio. A efígie na igreja em forma de um sepulcro apresenta uma torção do pulso análoga ao giro das mãos das dançarinas que, por sua vez, remeterá visualmente aos braços vistos nas janelas de Woolworths pedindo socorro.

8. A renovação dessas modalidades ritualísticas parecem ser um tema frequente na obra de Price. Depois de ganhar o prêmio Turner por The Woolworths Choir of 1979, Price fez duas instalações de duas telas que figuram o sol e a indústria de meias femininas, Sunlight (2013) e K (2015). Em K, enquanto uma tela mostra uma série de fotografias do sol tiradas ao longo de décadas e outra com uma animação de computador de um maquinário de tecelagem, com uma narração textual e sonora através de uma voz gerada por computador. A instalação conjuga diferentes modalidades da imagem (a animação de um registro fotográfico serial e a animação computadorizada) e um tratamento do som que sinaliza a intervenção tecnológica dos rituais (o som de um maquinário de tecelagem e a voz computadorizada, desvinculada de um correspondente corpóreo).

9. Nessas instalações encontra-se novamente a metáfora do sol, um motivo simbólico já visto em The Tent: a maior fonte natural de luz branca e ruído branco, aludindo também ao conceito espacial de Moyes do grupo Systems. O sol, objeto mítico e inalcançável como na narrativa de Ícaro, funciona como uma metáfora da totalidade das experiências humanas por estarem presentes todas as cores e todos os registros sonoros juntos. Analogamente mostra-se a construção de um ideal feminino igualmente inalcançável e utópico atravessado pelo progresso tecnológico.

10. A perspectiva de totalidade existe em Price apenas como uma utopia, o que é tangível são as práticas e rituais constantemente atualizados. Rituais que implicam em um estado emocional e sensorial intenso, mas que dispõem apenas de uma sintaxe, uma coleção de gestos, fragmentos, páginas soltas esperando para serem organizadas. O som e os ritmos de Price nos conectam com a dimensão fetichista dessas práticas que são continuamente renovadas na música, na dança e no fascínio com a tecnologia. A dimensão da eterna e frustrante busca por uma plenitude espiritual, seja no sofrimento mistificado da santidade, no espaço idealizado de sensações totais da tenda de Moyes ou na presença quase divina do sol.

  1.  “We considered that the concept of heaven is only perfect because you can never enter it in this life. So when we attempted to occupy our imaginary order we met with some surprises. So we laughed and danced in joy and fear.” ↩︎
  2. RUTGRINK, Erik. “Sound and the meaning-making process”. Reading Concepts of Intermediality, 2014.
    https://www.academia.edu/6071126/Sound_in_the_Meaning_Making_Process_Eric_Rutgrink. ↩︎

Autor

  • Nicholas Correa

    Crítico de cinema e Bacharel em Comunicação Social – Cinema e Audiovisual.

    nicholascnegreiros@gmail.com Correa Nicholas