Voz e vazio: poéticas da não-presença

Last Updated on: 23rd agosto 2023, 11:15 am

Enquadro é um filme que tem por matéria a estranheza. Tal elemento fílmico se dá por uma handycam que filma à espreita espaços comuns a toda quebrada brasileira: becos, vielas, praças, campinhos de futebol e escadarias. A imagem é escura, noturna, preta e branca, de alto contraste e se move junto aos passos de quem a manuseia, por vezes criando planos pouco compreensíveis pelo uso do zoom digital. O território, ausente da presença de pessoas, é preenchido por este corpo estranho – a câmera – e por vozes de Lincoln Péricles, Caíque, Foguinho e Aldo em uma entrevista que mais se assemelha a uma conversa entre parceiros. De forma descontraída, esses personagens falam sobre telhados de shopping, morcegos, baile, trabalho, classe e sobre a violência que intitula o filme: o enquadro. A presença opaca destes corpos e a fantasmagoria dessa câmera cambaleante instauram um contínuo entre voz e vazio que dá tom e forma à maior parte do filme.

Frame de Enquadro

A opacidade desses corpos se dá por uma relação entre o em quadro e o fora de quadro, a presença e a não-presença. O em quadro opera no campo do visível e se torna evidente quando um de seus personagens fala que a polícia “não aguenta ver ele”, após ser perguntado se já levou muito enquadro. Logo adiante, o mesmo personagem justapõe sua fala anterior ao dizer que, na verdade, essa violência acontece quando ele está sozinho com a polícia sem outras pessoas que possam testemunhar o ato, no fora de quadro. Enquanto tais conversas urgem um contexto ou algo a ser visto, o filme devolve ao espectador ruas vazias, hostis e fantasmagóricas, um abismo.

Instaura-se então uma poética do entre quadros, do visto e não-visto presente no filme e em continuidade com as ruas. Deste modo, estes personagens imprimem no campo do sensível um espaço do entre-imagem: algo que concomitantemente está e não está no quadro. A não-presença visível dos corpos é transposta para sua presença vocal evidenciando uma presença no vazio, de forma similar aos pixos impressos nas paredes e muros da quebrada. Lincoln usa as vozes como dispositivos que transformam um acontecimento sensível, o enquadro, em outro, uma poética. A voz, portanto, não opera como a manifestação do invisível em oposição ao visível sob uma lógica binária entre imagem e som, mas atua de forma concomitante no campo do sensível.

Assim sendo, institui-se que essa quebrada vazia, na verdade, é uma quebrada que foi anteriormente esvaziada por uma força maior e externa ao curta – um braço forte. O filme delimita que a presença visível desses corpos em espaços como este são um risco a sua integridade, tendo em vista o que foi dito sobre o enquadro por um dos personagens. O que se evidencia em alguns momentos pontuais nos quais vemos a câmera registrar corpos desconhecidos nas arestas da imagem. Em dado momento, a câmera tenta acompanhar um desses vultos, porém, ao dobrar a esquina se depara apenas com a escuridão, o abismo; somente o seu rastro em meio a vastidão, sendo ele engolido pela escuridão da noite. Lincoln instaura uma poética de um emquadro impossível, da impossibilidade de ver algo que não é para ser visto. Assim como os morcegos que ocupam os telhados dos shoppings no qual um dos interlocutores trabalha, o que testemunhamos desses personagens no quadro se dá por meio dos rastros que eles deixam nas sombras. 

Frames de Enquadro

Mesmo com o uso desses artifícios, não é possível escapar da violência presente nos espaços que Enquadro transita. O discurso que, de alguma forma, se apresenta como universal, no sentido de que o espectador já tem consciência dessa forma de abordagem policial, é estranhado pela maneira que Lincoln interpela esses sujeitos. Uma estranha descontração entre os interlocutores mistura as falas sobre relacionamentos e enquadro, baile e trabalho, como se fossem objetos da mesma matéria. Junto a esse estranhamento discursivo, a privação do espectador em ver os interlocutores reposiciona essa violência a uma atmosfera hostil que paira por todas as imagens, habita essa vastidão e instaura o abismo. Se enquadrar é pôr em quadro, Lincoln faz o seu oposto. O filme vê o em quadro, mas apenas a voz e o vazio ao seu espectador. Enquadro é um filme que atrai coisas que se repelem. É hostil e obscuro ao retratar a violência policial e compor seus planos; é sutil, íntimo e cuidadoso pela forma que Lincoln conduz a entrevista e apresenta seus personagens. Imbricado em uma relação indissociável entre o não-visto e a presença, as imagens sem corpos não contestam o visível, mas atestam sua ausência.

Autor

  • Renan Eduardo

    Crítico de cinema e pesquisador. Bacharel em Cinema e Audiovisual pela PUC Minas e mestrando em Comunicação Social pela UFMG. Atualmente, é editor e redator da Revista Descompasso.

    renaneduardo11@gmail.com Eduardo Renan