Mutações e lacunas em “Otro Sol”

Last Updated on: 2nd outubro 2023, 09:56 am

Iniciada a sessão de Otro Sol (2023), de Francisco Rodríguez Teare, somos logo apresentados a uma dupla de jovens atores interpretando dois primos vagando em uma estrada em uma região do deserto do Atacama. Em um ponto próximo da rodovia eles descobrem um corpo sepultado com uma orelha à mostra, um dos vários corpos sepultados na região conhecida pelas  disputas entre garimpeiros. Uma narração em voice-over descreve um roubo mítico  à Igreja de Cádiz em Andaluzia na Espanha em 1978 cometido por uma dupla de ladrões, e então surge um plano que se fecha no rosto dos dois atores; tela preta, segue-se o título do filme. Logo de início sabemos que o filme irá explorar uma certa ambivalência nessas figuras, quanto ao naturalismo do cotidiano dos dois rapazes e ao status de mito do relato dos dois ladrões: Alberto Candía e Eugenio Pizarro Pizarro.

Fundindo o registro documental com o ficcional, Teare realiza ao longo do filme uma série de trocas simbólicas, as mais notáveis com o trabalho de atores. A dupla vista no início ora interpreta primos, ora interpreta os ladrões lendários. O contraste do cotidiano dos moradores da região do deserto chileno e da história do roubo à catedral de Cádiz expõe um ciclo histórico de violência, tendo o ouro como bem material e simbólico no centro dele. Os moradores chilenos ora descobrem sob seus pés tanto o ouro, quanto corpos. Tanto o objeto “mágico” e reluzente, quanto as evidências materiais dos atos de violência. Os ladrões mitológicos são vistos quase como figuras arquetípicas que transitam entre essas duas realidades, que realizam essas trocas e inversões e que, logo, de um ponto de vista simbólico, centram essas operações no filme. Basta comparar dois momentos de rituais de “purificação”: um primeiro em Atacama, onde um dos jovens recebe a bênção com o auxílio de ervas e um ovo e um segundo onde os Alberto e Eugênio, após terem saqueado bens sagrados e valiosos da igreja, comemoram o feito se abençoando mutuamente com os objetos dourados.

Mas se essas trocas simbólicas se ancoram em algumas formas mais definidas, nos atores principalmente, Teare complexifica as relações formais com uma alternância de registros que parece expor algumas intencionalidades que estão em disputa dentro do filme. Por um lado existe um desejo evidente por dramaturgia e encenação; um desejo que também se verifica na composição dos planos, alguns deles cheios de movimentos coreografados e de camadas visuais. Por outro lado, o filme também mostra um apreço por formatos mais comuns ao documentário, como o registro em câmera na mão, de certos momentos mais espontâneos das figuras que registra, principalmente nas entrevistas. 

Há de se notar que nem sempre esses formatos mais “documentais” cumprem exatamente as funções que se esperam deles, pois eles também se valem de encenações. Há uma certa qualidade performática na maneira  que o filme conduz suas entrevistas. Em uma delas, em particular, um dos atores mais velhos interpreta um suposto Eugênio “aposentado” e relata crimes violentíssimos. Há um certo humor macabro com o tom grotesco desses relatos e do aspecto surreal de vê-los no formato de uma entrevista. 

Mas a alternância desses diferentes modos de registro não se faz tão clara. Por vezes, a alternância soa arbitrária dado que tanto as cenas atuais no Atacama, quanto as cenas na Andaluzia em 1978 possuem essas disrupções: no roubo à catedral, ora seguimos a dupla com um estilo semelhante ao cinema verité, ora surgem planos intrincados dos dois fugindo do roubo. O que parece unificar todos esses tipos de registro, no entanto, é o uso do formato em 16mm, um uso que não esconde alguns “defeitos” como algumas queimaduras na lateral do quadro. Por trás dessa alternância, a qualidade física do formato parece revelar em tese um desejo por materialidade, por tornar o jogo simbólico em algo carnal (mesmo em momentos em que um certo lirismo contamina o campo visual, como no reflexo do sol nas ondas do mar e na aparição luminosa nas colinas). Existe tanto um desejo por fazer com que a narrativa mítica se entranhe na carne e nos objetos, quanto por deixar sua representação como disruptiva com lacunas entre um modo de registro e outro. Se o sentido e a força de Otro Sol vem de seus contrastes e, principalmente, do trânsito de signos dentro deles, repara-se que alguns deles ainda deixam questões em aberto.

Autor

  • Nicholas Correa

    Crítico de cinema e Bacharel em Comunicação Social – Cinema e Audiovisual.

    nicholascnegreiros@gmail.com Correa Nicholas