Um cinema de impurezas: os gestos de Narcisa Hirsch

por Ana Júlia Silvino, Egberto Santana, Renan Eduardo e Rubens Fabricio Anzolin

Textos originalmente publicados para a mostra “Os gestos de Narcisa Hirsch” organizada pela Revista Descompasso em parceria com o 27º Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte (FestCurtasBH). A Mostra gerou o dossiê “Um cinema de impurezas” agora também publicado integralmente nesta revista.

O trabalho que aqui vem à luz nasceu antes mesmo da partida de Narcisa Hirsch, em maio de 2024, aos 96 anos de idade. A essa altura, nós, da Revista Descompasso, buscávamos reunir os filmes da cineasta para formular uma publicação ao redor de sua produção. O intuito inicial era provocar o contato de Hirsch — ainda pouco debatida e exibida no Brasil — com os olhares contemporâneos, traçando paralelos com o cinema experimental feito na América Latina. Isso tudo surgiu de uma conversa a partir do filme Come Out (1971), e acabou desdobrando-se, mais de um ano e meio depois, no combo mostra/dossiê que enfim encontrará seus interlocutores.

Quando propomos aos redatores da Descompasso, entre colaboradores fixos e autores convidados, pensar o cinema de Narcisa Hirsch, achamos por bem não limitar as análises de seus trabalhos a apenas um filme. Numa visada mais geral, interessava a nós a detecção de gestos, práticas e desvios feitos pela cineasta filme a filme. Quem por ventura já se propôs a navegar pelo corpo denso, maleável e às vezes fugidio do trabalho de Hirsch, poderá confirmar nossa aposta. É difícil definir um parâmetro a ser seguido, uma linha mestra que cruza a primeira obra à última. Há, evidentemente, pontos de contato, mas eles nascem e morrem, imbricam-se e misturam-se, e consolidam-se num conjunto a partir sobretudo de suas diferenças. Uma coisa toca a outra, se monta e desmonta, vai e volta, e transforma a matéria dos filmes em um legítimo palimpsesto, fazendo com que aquilo que está em tela seja reescrito constantemente.

Narcisa Hirsch nasceu em Berlim, na Alemanha, em janeiro de 1928, mas logo mudou-se para Argentina, em virtude da Segunda Guerra Mundial. Sua obra como cineasta, apesar de extensa, surgiu depois de um primeiro período de incursão na pintura e escultura. Estas artes serviram de influência criativa para as imagens que cercam seus curtas-metragens, tecendo um retorno teórico às suas primeiras influências. Os filmes em Super 8 e 16mm iniciaram ao fim da década de 1960, já em Buenos Aires, quando Hirsch, ao lado de colegas como Horacio Vallereggio e Claudio Caldini, passou a organizar exibições de fitas experimentais em espaços não-oficiais, uma vez que museus tradicionais e salas de cinema não recebiam suas obras.

Entre 1967 e 2024, ano de sua passagem, Hirsch produziu mais de 50 filmes. Ainda assim, brincava consigo mesmo ao se autointitular uma “famosa desconhecida”1, pelo modo como sua carreira foi tardiamente explorada nos campos mais prestigiosos do cinema, e não tão interligados às Artes Visuais. No Brasil, temos notícia de uma mostra anterior de Narcisa Hirsch, realizada pela Mutual Films2, e intitulada “Cine sin limites” (2017), que abordava o trabalho da diretora ao lado de realizadores parceiros, como o pioneiro experimental Jorge Honik e o já citado Claudio Caldini. Vale também lembrar que, mais recentemente, o festival mineiro FENDA — Experimental Festival of Film Arts, realizou a exibição de um trabalho de Hirsch, dentro de sua programação itinerante chamada Circuito Fuga.

No caso deste dossiê, intitulado “Um cinema de impurezas: os gestos de Narcisa Hirsch”, em relação à Mostra Especial Narcisa Hirsch, feita em parceria com o FestCurtasBH, serão dez textos que procuram justamente elucidar os gestos da cineasta, antes mesmo de mapear seus trabalhos de modo mais burocrático. Muitos dos ensaios, aliás, buscam no contato entre duas ou mais obras o desdobramento de uma poética de difícil definição, mas com temas circulares que volta e meia aparecem. Filmes importantes de sua trajetória são citados — Taller, Come out, Diários Patagônicos, Manzanas —, mas não se reduzem, necessariamente, aos seus procedimentos internos. Como a um calabouço de materiais e fluxos, o interesse pelos trabalhos de Hirsch se confunde com o interesse pelo fazer cinematográfico e experimental, e é justamente aí que se dá nossa aposta.

Entre as muitas chaves de análise possíveis de seus filmes, nos comprometemos a investigar a postura de experimentação e o manejo diante das múltiplas matérias que Narcisa tem à mão. Entretanto, não buscamos estabelecer ou reinvindicar um cânone, mas sim encontrar outras possibilidades de diálogo e aproximação com esses filmes no presente. Ao passar por parte da filmografia de Narcisa Hirsch, desejamos mais do que produzir uma homenagem póstuma, e sim ir ao encontro de um cinema de experimentações radicais e formas imperfeitas.

Olhares, práticas e gramática particular

Assistir isoladamente a um filme de Narcisa Hirsch levanta dúvidas e incertezas. A relação do espectador com a obra é invariavelmente instável, sem chão para firmar-se. Entretanto, não nos vemos diante de um cinema abismal, mas sim em vertiginosa queda livre dentro dele e rumo ao vazio. Sua heterogenia formal produz um díptico, um impasse que se dobra para os dois lados, mas sem romper-se. Ao passo que Come Out (1971) e Ama-zona (1983) podem se aproximar de uma tradição do cinema estrutural, outros trabalhos como Diários patagónicos 1 (1973) e Rafael, Agosto de 1984 (1984) operam uma prática mais próxima das escritas de si e do registro cotidiano. Diante disso emergem duas forças: uma que pertence à ordem do problema e outra da descoberta.

Sobrevoar suas obras provoca incerteza diante de estilos e procedimentos variados. À medida que o espectador é levado pelo mergulho, os filmes, ou melhor, os gestos, parecem juntar-se, criar ligações no imaginário de quem assiste. Isto é, um mesmo filme suscita associações e aproximações internas singulares à própria filmografia de Narcisa. Diários patagónicos 1 (1973), por exemplo, pode criar vizinhanças tanto com Testamento y vida interior (1976) por meio da música brasileira quanto com Talleres em função do zoom enquanto escolha formal. 

Ainda que sua filmografia seja extensa e variada, é possível identificar uma poética que, em maior ou menor grau, permanece constante em suas obras: atrair elementos de ordens distintas como formas de um mesmo espírito. Sem opor ou sobrepor nenhuma dessas matérias, imagem e música, amor e sexo, vida e morte, repetição e inércia, surgem como um apego por experimentar em meio ao contato impuro, tête-à-tête entre arquivos, intervenções urbanas, sonoridades, pinturas e registros do cotidiano. Tal postura diante de sua obra produz um gesto próprio, uma gramática particular e imprecisa que surge dos fartos contatos heterogêneos de sua formação e atuação artística. A esta gramática, procuramos deter-nos, com cuidado e afinco, paixão e admiração, sem buscar o esgotamento, mas sim abraçar as variedades possíveis da forma, do corpo e do espírito de seus trabalhos.

Confira abaixo os links para todos os textos publicados

Texto curatorial

Viagem ao centro de tudo: Os gestos de Narcisa Hirsch por Rubens Fabricio Anzolin

Críticas e ensaios

Descendência erodida e transmutada: fantasmagorias reencarnadas em pixel barato por Lucas Honorato

De um umbigo nasce uma maçã verde por Helena Elias

Disse Narcisa Hirsch: “Haja luz”, e houve luz por Juliana Costa

Pontos de atenção: usos do zoom no cinema de Narcisa Hirsch por Nicholas Correa

Se faz caminho ao caminhar por Renan Eduardo

Imagens para enganar a morte: Narcisa Hirsch e a vontade de velar o mundo por Larissa Muniz

Um filme, um plano: Taller, de Narcisa Hirsch por Waleska Antunes

O visível do invisível por Maria Sucar

Ecos e excessos: Som, Ruído e Transparência em Come Out (1971) por Ana Júlia Silvino

Olhar para trás é olhar para a luz por Rodrigo Sampaio

O Íntimo-Cósmico: Corpo, Paisagem e Tempo no cinema experimental de Narcisa Hirsch por Fernanda Pessoa

Traduções

Narcisa Hirsch em quatro lugares (um mapa expandido)

Sinais de vida: o testamento de Narcisa Hirsch (1928 – 2024)

  1. Conferir texto de apresentação da Mostra Narcisa Hirsch no Museum of Modern Arts (MoMA), em 2024: https://www.moma.org/calendar/events/9311. Último acesso: 26/08/2025. ↩︎
  2.  Trabalho de curadoria feito pela dupla Aaron Cutler e Mariana Shellard, que anualmente exibe programas especiais de cinema (experimental ou não), em São Paulo, no IMS, e em outras regiões do Brasil. Deixamos nosso agradecimento a ambos, pelas trocas que originaram esse dossiê/mostra, e também pelas muito valiosas informações repassadas acerca de Narcisa e do estado de conservação de seus filmes.
    ↩︎

Autor

  • Revista Descompasso

    A Descompasso foi criada em agosto de 2023 com o objetivo de ser um veículo independente de exercício, prática e expressão da escrita crítica sobre o cinema, a música e outras manifestações artísticas.

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