As armadilhas e prazeres de se deixar ser guiado ou Lincoln Péricles nunca me contou uma mentira que não fosse verdade

Last Updated on: 11th setembro 2023, 12:10 pm

0 – Um recado;

“Não acredite em nada que o Jair fale também. Cuidado…”

1 – Misturas anunciadas.

Jair + Boris = Jairboris. A primeira vista, é através dessa simples equação de soma que cria-se o mote do filme. Boris é o ator. Jair é o personagem. A intenção é contar as histórias de Boris através do personagem de Jair. Essa relação, além de ser indicada pelo título, é também explicitada na primeira fala do filme, quando durante os créditos iniciais, ouvimos o diretor, Lincoln Péricles, explicar o que ele chama de “mistura”.

No que tange pensar como se materializa essa dita mistura, a fala informal, como quem joga conversa fora, é o fio condutor. Se são nas histórias de Boris que reside a possibilidade de existência de Jair, então é no ato de falar que o personagem nasce. O ator começa o filme falando sobre o percalço de ser são-paulino e interpretar um corinthiano. Ouvimos uma conversa de “bastidores”, vemos os créditos iniciais do filme e, em seguida, uma cena em que Boris cambaleia por um cômodo, enquanto imita o ato de tocar violão e beber de um copo, até que se senta no sofá, ainda repetindo os mesmos gestos. A câmera que o captura cambaleia junto, desfocando a imagem enquanto captura planos irregulares dessa figura nesse espaço, sempre na tentativa de acompanhar e compreender sua coreografia.

Toda essa primeira construção de cena é tensionada pelo que sucede: Jair aparece sentado no mesmo sofá, tocando um violão, agora com uma câmera estável que o capta em um plano aberto em preto e branco. A cena que vemos contrasta diretamente com a que vimos imediatamente antes. É a mesma locação, mas com um cenário diferente. É o mesmo ator, mas agora como personagem. É a mesma ação, mas agora ela pertence a misé-en-scene. O áudio segue com a conversa informal até se diluir em Jairboris tocando e cantando uma música de sua autoria e, a partir de agora, apenas o personagem fala. Surgem em letras serifadas brancas em um fundo preto a palavra “Jairboris”.

Frames de Jairboris (2014)

Nesse primeiro momento, o caráter didático da fala e a exposição da construção formal é combinado com a mescla dos métodos ficcionais e documentais. Revela-se uma conversa sobre a produção do filme em junção com o que parece ser um momento de se pensar a mise-en-scene da cena que aparece logo em seguida. A ação formal de construir visualmente esses paralelos como um primeiro contato ao filme estabelece uma lógica de desarticulação dos modos narrativos que situa o espectador o inserindo em um terreno dúbio.  

2 – Recalculando;

Jair + Boris = Jairboris. Apesar de muito convenientemente o nome do filme ser a junção do nome do homem que possui as histórias (Boris) e do personagem pelo qual ele irá contá-las (Jair), na prática a equação exige mais um elemento para que chegue ao resultado certo. Retomando, então, o foco na soma que foi brevemente colocada no início do texto, eis algumas reflexões: 

  • 1 +2 = 3;
    • Um fator somado a outro fator, gera um terceiro fator, que pode ser chamado de resultado. 
  • 1 + 1 + 1 = 3 ;
  • 0,5 + 2,5 = 3;
    • O número “3” é algo que existe para além da soma de 1 + 2. Pode surgir através de inúmeras operações diferentes e nunca será apenas o que resulta dessa única soma. O número 3 existe por si só, para além do 1 + 2, apesar de em si também o conter. 
  • Jair + Boris = Jairboris;
    • Apesar de ser visualmente coerente, para chegar ao resultado apresentado, apenas esses dois fatores não são suficientes. Pensando que se trata de um filme, o ator e o personagem jamais serão suficientes para concluir uma obra. Da mesma forma que 1 + 1 não é 3, Jair + Boris não pode ser, na prática,  Jairboris.
  • Jair + Boris + Lincoln  = Jairboris;
    • Jairboris existe para além de ser apenas essa junção de ator e personagem. Pensá-lo enquanto a conciliação de uma dualidade, apesar de ser uma lógica tentadora, desconsidera que ele é, também, resultado de inúmeras operações diferentes. Lincoln entra na equação como a pessoa que, a partir dos relatos coletados dentro do método sugerido, cria sentidos e também os borra. A razão da existência de Jair é Boris e a razão da existência de Jairboris é Lincoln Péricles.

2 – Ouvir para crer; 

É essa relação que borra completamente o que seria uma linha tênue entre as dualidades estabelecidas entre homem e personagem e documentário e ficção. Lincoln, ao realizar o filme a partir das memórias interpretadas pelo sujeito ator-personagem, constrói o relato como elemento que dita o percurso e nele cria interferências através da montagem, das imagens que captura, das músicas que adiciona. 

A Princesa é possivelmente a peça mais emblemática para elucidar essa questão. Ela é apresentada por Jair como uma companheira de trabalho que não está tão atenta às armadilhas da fábrica. O que começa como um comentário à primeira vista rígido, logo se transforma em declaração. Jair diz que a ouvir falar o dá vontade de largar tudo e partir para algo melhor; que suas mãos, assim como ela inteira, são as coisas mais lindas. Ela é Lucy In The Sky With Diamonds, é perfeita, é apaixonante. 

Para falar de Princesa, a cena começa com Jair sentado na área externa da fábrica, observando algo que está atrás da câmera em um plano aberto, estático, sempre em preto e branco. O mesmo formato e estrutura utilizada na cena anterior é repetida em seguida com Princesa. Ela aparece em pé, escorada em um portão da fábrica, fumando um cigarro e olhando para algo que está fora do plano. Essa relação de observador e observada (ou de admirador e admirada) segue em uma progressão de aproximação: há um plano detalhe do rosto de Jair, ainda olhando para algo que está atrás da câmera e em seguida Princesa, nesse mesmo enquadramento, olha tímida para a câmera. Quanto mais próximo o personagem chega de expressar os sentimentos, mais próximo chegamos também dos dois, que até então aparecem sempre em planos distintos. 

Quando finalmente aparecem juntos no mesmo plano, trabalhando e conversando na área externa da fábrica, a fala do protagonista dá a vez para a música Rebel Girl de Joe Hill, um anarco sindicalista inglês dos anos 1910:

Essa é a garota rebelde, a garota rebelde!

Para a classe trabalhadora, ela é uma pérola preciosa.

Ela traz coragem, orgulho e alegria

Para o menino rebelde lutador.

Já tivemos garotas antes, mas precisamos de mais

Nos Trabalhadores Industriais do Mundo.

Pois é ótimo lutar pela liberdade

Com uma garota rebelde.

Sim, suas mãos podem estar endurecidas pelo trabalho 

E o vestido dela pode não ser muito bom

Mas um coração em seu peito está batendo

Isso é verdade para sua classe e sua espécie.

E os enxertadores em terror estão tremendo

Quando seu despeito e desafio ela lançará

Para a única e pura dama

é a garota rebelde.

Curiosamente, Princesa é descrita pelo protagonista da mesma maneira que Joe Hill descreve a dita “garota rebelde”. Essa mulher trabalhadora que traz vida, alegria e luta ao lado dos seus companheiros de classe. O áudio, iniciador de sentidos no filme a partir dos relatos de Jair, sofre uma interferência externa que põe em cheque a veracidade do depoimento. Apresenta-se então um momento de dúvida: Princesa é do mundo de Jair ou de Boris? Fadados à falta de uma resposta concreta, há um convite a compreender que isso pouco importa, pois ela não é nem de um e nem de outro, mas sim de Jairboris.

3- Se espreitar por entre o dito ou a ficcionalização dos fatos; 

As possibilidades de dobras nos sentidos são as forças motrizes do filme. O curta-metragem se propõe a operar na compreensão das múltiplas formas com que uma história pode ser retratada dentro do universo cinematográfico, isto é, as múltiplas equações possíveis que chegam a um mesmo resultado. É exatamente no ruído, na borra de uma dita linha tênue entre duas coisas que o Jairboris acontece. 

Esse caráter de laboratório de ruídos e múltiplas possibilidades aparece muito claramente em outra cena: começa com o personagem adentrando uma garagem cheia de ferro velho, ele vai se espremendo pelos espaços enquanto ouvimos sobre sua relação com o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). A bebida, que já tinha sido apresentada como um ponto importante da vida do protagonista, agora aparece como problema. Jairboris cria sua ficção como quem constrói um desvio; diz que utilizou da sua inteligência, afirmando que todos a possuem, e que conseguiu fazer todos os seus exames em troca de se apresentar nas reuniões do Alcoólicos Anônimos.

Jairboris, vestido em armadura de material reciclado, assume a posição de Dom Quixote e se permite viver na beira da realidade e da ficção, pois sabe que são nesses limites que moram as outras possibilidades que o sistema não entrega. Navega no mundo enquanto o louco que tomou o direito de ser pois compreende que é nessa loucura reclamada em autonomia que se encontra o caminho do meio, a conciliação entre estar inserido num sistema, mas não completamente sucumbir a este.  Se antes essas dúvidas surgiam da relação entre o que se vê e o que se ouve ou o que vem de Boris-Jair e Lincoln Péricles, assim como sua construção narrativa, agora elas chegam no plano principal da trama, que é o próprio testemunho da pessoa-personagem. Ele comunica, mas sem revelar tudo. Diz que vai participar das reuniões do AA, aceita todos os remédios, mas só toma os que lhe convém. Sua performance como cavaleiro, assim como toda construção narrativa do filme, confirmam: não se tratam de mentiras, mas de ficcionalização. E sendo fato ou fábula… pouco importa. Tudo é real e tudo pode ser verdade. 

Frame de Jairboris (2014)

Autor

  • Maria Sucar

    Licencianda em artes visuais pela UFRN e potiguar. Atualmente coordena e faz curadoria no Gambiarra Cineclube na cidade do Natal. Atuou como júri jovem na 25 Mostra de Cinema de Tiradentes e no 17 Panorama Coisa de Cinema. Contribuiu como crítica no 23 FestCurtasBH e nas revistas F(r)icções, Zanza e Descompasso.

    mariasucar@outlook.com Sucar Maria