Desencontros em Guarulhos

Last Updated on: 3rd outubro 2023, 11:53 am

Em O Estranho (2023) de Flora Dias e Juruna Mallon, um prólogo nos mostra a locação de Guarulhos ao longo de várias épocas. De maneira bem sintética, vemos as transformações do lugar desde antes do período colonial até os dias de hoje com a presença do aeroporto. Após esse prólogo, acompanhamos Alê (Larissa Siqueira), uma funcionária do Aeroporto Internacional de São Paulo/Guarulhos e suas relações com seus colegas de profissão e com sua amante (Patrícia Saravy). A personagem possui um vínculo com o local sobre o qual foi construído o aeroporto, um lugar que antigamente era território indígena, e ao longo do filme ela passa por um processo de reconexão com as suas raízes. Mas, ao mesmo tempo, algumas de suas relações mais próximas vão se desfazendo; sua amante está se mudando de Guarulhos e seus colegas que trabalham na pista não conseguem estabilidade com os empregos terceirizados. A presença do aeroporto sinaliza esses processos de desconexão e transitoriedade, não há mais vínculo ancestral com o ambiente. 

Entretanto, a ânsia das personagens e das cineastas por reconexão com o ambiente e com um senso de ancestralidade acaba por optar por alguns caminhos que ora soam confusos, ora soam genéricos e ora soam simplesmente didáticos. O que de início aparenta ser o enfoque das cineastas é a ênfase na ambientação, nas sensações imediatas daquela diegese. Em O Estranho vemos uma mescla de várias técnicas e abordagens em relação ao espaço e à planificação. Por vezes vemos uma valorização espacial por meio de composições em profundidade, por outras vemos o quadro se fechar em certas figuras e objetos de maneira a alienar a noção espacial por completo e relegar o ambiente a um campo desfocado. O que ocorre é que essa mescla de técnicas não parece responder a um princípio estruturante. Isso se deve porque, mais do que um filme que organiza as sensações em um espaço conceitual, O Estranho é uma obra de metáforas que se amontoam, sobre significados que são inscritos nas coisas. Em uma cena vemos Alê escrever por cima de um diário usado, um palimpsesto literal e metafórico. Um momento significativo metaforicamente, mas que descreve bem a dimensão eminentemente discursiva do filme, uma dimensão que se sobrepõe à sensorial.

Frame de O Estranho (Flora Dias e Juruna Mallon, 2023)

A experiência de acúmulo de sensações que Dias e Mallon parecem propor de início logo se revela apenas tautológica. Não existem sensações que se sedimentam paulatinamente, mas, certamente, existem signos insistentes e constantemente verbalizados. Signos da política, da ancestralidade, do passado e da identidade que se cristalizam, não deixam espaço para uma possível dimensão ambígua e misteriosa. Em dado momento chegamos a ver uma imagem computadorizada da pista do aeroporto coberta de vegetação e com parte do antigo relevo do sítio indígena. Sendo assim, dificilmente um tema poderia se fazer mais claro. Muito do que o filme insinua ao longo de sua duração já está presente na própria montagem do prólogo com as sucessivas alterações no espaço e da presença transitória dos sujeitos naquela paisagem. Esse didatismo insistente é patente em um outro procedimento formal que as diretoras lançam mão, um que rompe completamente com o pacto ficcional: as entrevistas que elas realizam com mulheres indígenas que vivem por perto e que também possuem uma conexão com Guarulhos. Logo em seguida esse formato é abandonado.

Os processos de organização das imagens, do som e das sensações parecem muito devedores do que se convencionou chamar de “cinema de fluxo”, um senso de climatismo e ambientação que, nos dias de hoje, depois de devidamente estudado e assimilado em outras produções do cinema mundial, com muita facilidade pode descambar para um academicismo. Alguns planos delongados, som diegético apurado, trilha de drone, fusões lentíssimas; várias técnicas comuns ao repertório de um “cinema de climas” estão aqui. É de se estranhar o quanto que um projeto que insiste em buscar uma relação muito particular e ancestral com uma terra específica pareça ter um senso estilístico já tão internacionalizado (o próprio enquadramento é na proporção 1.66:1, um formato singular que por muito tempo foi o padrão das produções européias). Com essas contradições e com um senso confuso quanto à ambientação, resta aos personagens verbalizar a intenção e a relevância do empreendimento.

Autor

  • Nicholas Correa

    Crítico de cinema e Bacharel em Comunicação Social – Cinema e Audiovisual.

    nicholascnegreiros@gmail.com Correa Nicholas